espiritualidade e vida cristã · missio dei · viagem

Primeira impressão


“Um navio no porto está seguro, mas não foi para isto que ele foi construído” 

John Shedd

“Nosso mundo é tão grande quanto a nossa perspectiva”

Tommy Barnett

Hoje, pela manhã, saí a caminhar com Deus. Ignorando todas as recomendações sobre mosquitos da malária e cobras, andei descalça pelo gramado ao redor da casa em que estamos, cercada pela Amazônia. O sol começava a esquentar e caminhei perto da mata, onde é mais fresco. Aqui, na base de JOCUM de Porto Velho, a sensação é de estar em constante retiro espiritual. As noções de tempo, distância e tamanho são completamente diferentes. O dia demora a terminar. As árvores e os animais crescem de uma forma que nunca vi antes. Apesar da informação de que cinqüenta famílias vivem nesta base, as pessoas se perdem no meio de tanto verde e quase não se vê ninguém.

Enquanto caminhava, pensei na senhora americana que mora ao lado da nossa casa. Ela está há quarenta e dois anos no Brasil e foi a primeira branca a ter contato com uma tribo até então desconhecida. Ainda quero bater em sua porta e ver as fotos que tirou para a Nathional Geographic nos anos setenta*. Ontem à noite, quando subi no teto na Rural que corria pela estrada de terra ao lado do rio Madeira, e abri os braços, sentindo o vento fresco da mata, entendi essa americana. Nada se compara a viver nossa própria aventura!

Na casa em frente à nossa, há outro grupo fazendo seu período prático em missões. Vieram do Canadá e são seis, como nós, mas muito mais heterogêneos. O grupo tem um alemão, um jamaicano, uma escocesa, alguns americanos, e a líder é da República Dominicana. Minha equipe tem uma argentina, Lily, e ainda não tive experiência mais “internacional” do que foi nosso jantar na sexta. Sentamos juntos para comer feijão com arroz e tomar suco de cupuaçu. A conversa se dava em três línguas, até que comecei a conversar com Arifam, índio da tribo jarawara que sentou ao meu lado, e acrescentou mais uma. Ele disse-me que tem dificuldade com o português e com as diferentes formas de falar. Então notei: mineiros, cariocas, catarinenses, paulistas e baianos, todos na mesma mesa, cada um com seu sotaque e seus dizeres. Arifam trabalha desde 2002 traduzindo o Novo Testamento para a língua de sua tribo. Seu projeto, neste momento, é falar fluentemente o coreano, língua que está aprendendo, e ser missionário fora do país. Ele respira aventura e ainda quer mais.

Perto de uma bananeira, a maior que já vi, parei de andar por um momento. O único som de antes eram meus próprios passos e o turbilhão de pensamentos. Agora, até consigo ouvir as folhas caindo das árvores. É impossível não pensar em Deus e em sua grandeza quando olho para a imensidão desta floresta. Sinto-me pequena, impotente. Impossível não perguntar onde entro em tudo isso. Mas ela não me fala apenas de grandeza. Fala de equilíbrio e, acima de tudo, de silêncio. Fecho os olhos, respiro o ar puro. Mesmo os mosquitos da grama não me incomodam. Tudo está tão parado. Não ouso perturbar o silêncio com minhas dúvidas e inseguranças, minhas preocupações com pessoas e relacionamentos, ou com o que vamos fazer nos próximos dias entre os ribeirinhos. Por alguns segundos, consigo ouvir Deus. Sua voz é bastante clara num lugar assim. Tudo ao redor é inspirador. Sim, agora entendo. É a este estado de silêncio interior que preciso chegar. Um lugar de descanso, onde qualquer folha que cair, qualquer coisa que estiver fora do lugar, poderá ser notada. Preciso chegar a este equilíbrio, quando a grandeza que está ao meu redor não assusta, mas desafia a ir além; onde cada passo que eu der será bastante claro e saberei exatamente para qual direção estou indo.

Volto para meu quarto e sobre a cama está o livro que separei para reler nesta viagem, Aventure-se, de Tommy Barnett. O título me faz sorrir. Tenho conhecido pessoas que parecem personagens de livros. Eles vivem as histórias que leio, mas sou grata porque nestas páginas algumas linhas também foram reservadas para mim.

Saberei escrevê-las?

 

Porto Velho / RO – 08.05.11

 

Brasil, Argentina, Jamaica, Costa Rica, Canadá – encontro de culturas em Porto Velho 
Base JOCUM Porto Velho – A sensação é de estar em constante retiro espiritual

Arifam, o jarawara que trabalha traduzindo o Novo Testamento para sua tribo

Tranquilidade em “nossa” casa na base
As noções de tempo e de tamanho são muito diferentes por aqui
Entrando na história – Ferrovia Madeira-Mamoré
Cecília, índia da tribo Jarawara, que confeccionou nosso colar de sementes de açaí
No centro da cidade, índias da tribo Jarawara

*No dia seguinte, entrevistei a missionária citada. Por orientação da missão em que trabalha e pelo contato com os índios ser uma questão polêmica, ainda sendo discutida no Senado, sua história não pode ser publicada na internet. Se você quiser ler o perfil que escrevi, por favor, deixe um comentário solicitando que envio para seu e-mail.

**Atos 1.8, traduzido por ela para a língua da tribo com que trabalha há 40 anos.

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