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Fazendo o que Deus quer

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“Continuo trabalhando pelo que acredito. Permaneço em meu chamado, porque estou fazendo o que sei que Deus quer”

Jeito de menino, sabedoria de ancião. É impossível sentar para conversar com Marcelo Moura e não sair impactado. Há 23 anos em JOCUM, dez deles na base Curitiba Sem Fronteiras, fala de sua caminhada com Deus e do sonho de ver cada povo alcançado, até que a Grande Comissão se cumpra. Todo esse tempo em missões faz dele um homem cheio de experiências, como os anos em que esteve na Mongólia, o primeiro missionário brasileiro no país, numa época em que o evangelho ali era quase desconhecido, ou seu tempo discipulando meninos de rua em Belo Horizonte, meninos que hoje tornaram-se homens de Deus e são influência positiva por onde passam. Conheça este homem de convicção, casado, pai, mobilizador, líder admirado, um dos escritores da história desta base.

 

Como foi seu chamado?

Meu chamado foi um processo. Comecei sendo desafiado neste lugar mesmo, quando aqui era o Seminário Menonita e a APEC fazia trabalhos com crianças. Eu era criança e vinha aqui. Lembro muito bem das histórias bíblicas, das histórias missionárias, como eu era desafiado pelas músicas e por essas histórias. Mas eu era criança, tinha medo, não levava tão a sério de que seria um missionário. Isso ficou guardado. Eu realmente tinha tido uma experiência de conversão genuína quando era criança. Quando eu estava na adolescência, já processava melhor, o medo foi embora e isso foi se confirmando na minha vida como um chamado. A vocação pro ministério se consolidou. Na verdade, quem mais me motivou foi o pessoal da missão Ágape, que mobilizava novos missionários. Conheci JOCUM através deles. Antes pensava em ser pastor, fazer seminário, mas neste processo de conhecer o trabalho deles, conhecer JOCUM, entendi de Deus que era pra eu ir pra JOCUM.

Como chegou a esta base?

Eu morava em Curitiba. Quando defini que iria pra JOCUM, ou pra missões, a base estava começando aqui. Era no início, o Laurenildo tinha chegado há pouco tempo. Então eu quase não tinha contato com a JOCUM aqui e também entendia que precisava sair daqui. Fui fazer minha ETED em Contagem. Minha vida em JOCUM começou lá, depois em Belo Horizonte, depois nos Estados Unidos e Mongólia. Foi quando voltei da Mongólia em 2002 que vim para Curitiba, já casado com a Damares, tendo a Rebeca, minha primeira filha. Passei um ano aqui como obreiro antes de casar, mas foi um tempo de intervalo. Só em 2002 entendemos que iríamos ficar em Curitiba. De lá para cá comecei a viver a história de estar junto com os Projetos Internacionais.

Você vê diferença entre as pessoas que chegavam para fazer parte de missões naquela época e as pessoas que chegam hoje para serem treinadas?

Era muito diferente. Quando eu saí, que deixei minha casa pra ir pra JOCUM, fazer ETED era algo assim: “Estou largando tudo pra ser missionário”. Tinha um conceito, hoje até acho que não foi tão positivo, mas larguei tudo mesmo. Podia ter entrado numa faculdade, poderia ter buscado uma formação, mas na época isso não era um valor que era carregado. Era mais o valor de pioneirismo, de fé, de largar tudo e viver pela fé, literalmente, não ter vínculo de sustento que não fosse pela vontade de Deus. Hoje ainda funciona assim, mas me parece que hoje as pessoas já estão buscando mais segurança, um futuro mais certo, um caminho mais traçado. Ela não vêm dispostas a encarar um desafio de “não sei o que tem amanhã à minha frente. Estou indo porque Deus me falou”. Naquela época eu não sabia do futuro. Sabia do que Deus tinha dito na hora e eu ia fazendo. Hoje a gente vê que as pessoas já vêm com um planejamento, querem uma estrutura estabelecida, precisam de mais apoio. Naquela época a gente tinha mais cara de pau, ia mais na cara e na coragem.

Você acha esta necessidade de segurança ruim?

Não, é diferente. Teríamos mais gente indo se as pessoas não tivessem a necessidade de tanta segurança. Nós mesmos exigimos coisas hoje que na época não se exigiria. Acho que é o tempo que estamos vivendo. Hoje JOCUM está numa situação que não tem como viver como era antes. Seria interessante se houvesse um pouco mais de pioneirismo, mais iniciativa. Mas cada um é cada um. Às vezes, a realidade de hoje não pede esse pioneirismo tão forte. Pede outra coisa. Talvez, a qualificação dos que vem hoje seja muito mais útil do que aquele pioneirismo. Talvez ele não exista mais porque não tem tanta necessidade. O que existe hoje é o que é preciso hoje. A menos que a gente esteja falando de início de novas frentes. Na estrutura que temos nesta base não precisamos que aqui estejam esses pioneiros. Pois ela precisa apenas ser melhorada. A gente precisa que pioneiros cheguem aqui e vão para o campo. Lá sim pode ser um lugar em que vão trabalhar do zero, onde não há nada.

Muitas pessoas que vêm para missões ficam um tempo e acabam voltando. O que fez você permanecer?

A convicção do chamado e também a construção dessa vocação pelo perseverar. Eu tive momentos de confronto, de pensar em voltar em algumas coisas. Nos três ou quatro primeiros anos em que estava em JOCUM era muito jovem, era quem deveria estar na faculdade, várias vezes pensei: “Vou voltar pra casa e fazer uma faculdade”. Mas em momento nenhum isso foi forte o suficiente pra me tirar da missão, porque o meu compromisso, onde eu estava naquela época, que era na Casa Restauração, era forte também. E como Deus me desafiou para algo maior, ir para a Mongólia e buscar treinamento para isso, o que eu achava tão grande quanto uma faculdade, meu curso superior acabou sendo a universidade da JOCUM mesmo. Eu sempre tinha um desafio à minha frente, algo que me puxava, isso minimizou a possibilidade de desistência. Quando voltei para Curitiba também não pensei em largar a vida missionária, porque entendia que minha vocação não era geográfica. Então se eu não estava na Mongólia ou no campo onde haviam pessoas não alcançadas e eu estava na minha cidade natal, não me via trabalhando aqui ganhando dinheiro. Estaria muito insatisfeito se tivesse feito isso. Como permaneci buscando trabalhar por missões, por mobilizar, por ver pessoas indo pra outros povos onde eu também gostaria de estar, foi fácil ficar. Continuo trabalhando pelo que eu acredito. Permaneço em meu chamado, porque estou fazendo o que sei que Deus quer.

Sei que já falou um pouco sobre isso, mas teve algum momento específico em que você entrou em dúvida, pensou em não ser mais missionário ou se arrependeu de ter dedicado a vida a isso?

Isso aconteceu muito pouco. Algumas vezes pensei sim, não vou dizer que não. Talvez um dos momentos que mais me confrontou foi agora quando já estou numa idade que não posso voltar atrás. Se o peso disso fosse maior quando eu era bem mais jovem, talvez tivesse mudado de curso. Só que sempre consigo avaliar as decisões que tomei no passado satisfatoriamente. Toda vez que falo do tempo que perdi, digamos assim, por não ter feito uma faculdade, um exemplo muito forte para mim, consigo substituir a ausência de um diploma pelo nome dos meninos de rua que acompanhei. Tem o  Jorge que é missionário em Porto Velho, o Claudino que é um homem casado, não sei bem se é pastor… São dois ou três que moraram comigo, eram crianças, meninos de rua. Eu os discipulei por aqueles três anos que seriam os anos da minha faculdade. Isso é o que me fortalece. Hoje eu olho para os meus amigos de adolescência. Todos eles são formados, trabalham, ganham bem. E eu sou missionário, formado, ganho o suficiente (risos).

Deus já realizou todos os seus sonhos?

Daquilo que eu tinha sonhado quando criança, creio que Ele já realizou.  O que vivi na Mongólia, que era um sonho, já me deixou satisfeito. Não sinto que deixei de fazer, ou terminei antes do tempo. Estou feliz com o que alcancei lá. Já passei dez anos aqui como mobilizador. Não tenho mais aquele sonho de criança. Agora tenho alvos e sonhos relacionados ao que Deus nos desafia: concluir a grande comissão, enviar pessoas para lugares não alcançados. Não posso dizer que isso era algo que eu sonhava na infância. É mais algo que Deus me desafia a promover hoje. Neste processo estou disposto, se ainda em algum momento Deus me mandar para o campo, para algum lugar não alcançado, de outra língua e outra cultura, estou pronto para ir. Mas se não for e ficar aqui também estou satisfeito.

Como você vê a base de JOCUM Curitiba Sem Fronteiras?

Vejo como uma base que está realmente tomando a sua vocação missionária como prioridade, um lugar em que temos procurado ser uma incubadora que recebe pessoas e as ajuda a crescer em suas visão. É o lugar que as fortalece, encoraja, alimenta seu chamado e possibilita sua ida ao campo missionário. É também a base que está olhando para fora, para as nações, para os povos não alcançados. É uma base com ênfase missionária, que facilita a entrada de pessoas no campo. É um lugar onde as pessoas podem ser treinadas e adquirir ferramentas para multiplicar isso lá fora.

Esta base é vista como porta de entrada para as nações. Qual é sua sensação ao fazer parte disso?

Estou satisfeito por termos esta característica. Se estou nesta base é porque ela trabalha dessa forma. Se fosse uma base que não encorajasse isso, não estaria aqui. Fico feliz porque a gente pode dizer que tem feito isso. O que temos feito é louvável, mas tem espaço para muito mais.

O que você diria para alguém que estará aqui daqui a dez anos?

Diria para permanecer fiel à Palavra de Deus, tanto à palavra escrita, quando à revelação que Ele dá individualmente. Permaneça naquilo que Deus falar e seja pronto a obedecer. O desafio vai continuar de trazermos o Reino de Deus para a terra. Isso se tornará possível na medida em que estivermos alinhados no relacionamento com Deus, com o compromisso de obedecer à voz dele, de não olhar para trás, de perseverar diante de dificuldades ou de barreiras. Desejo que tudo aquilo que foi conquistado até aqui não seja visto como algo que foi feito por homem. Tudo foi Deus quem fez. Ele começou, continua fazendo e vai continuar na geração que segue.

Texto e entrevista de Eliceli Katia Bonan

Fotos: Davi de Souza

Inicialmente publicado em JOCUM Curitiba Sem Fronteiras

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