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Até o último capítulo

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“Você se coloca como um pedacinho da história e se coloca como resposta de Deus naquele lugar. Depois outros fazem. Você não precisa fazer toda a história”

“Somos sem fronteiras. A gente escuta Deus e vai”

“Enquanto eu viver, vou terminar isso. Vou continuar pregando o evangelho”

O nome da cidade onde nasceu é tão interessante quanto uma tarde de conversa com ela: Curuzú Cuatiá, na província de Corrientes, Argentina. Ana Elisa Barría Maximiano, imitadora de Cristo, uma mulher para se imitar. Num português perfeito, palavras profundas ditas da maneira mais simples possível. A alegria contagiante e a risada descontraída deixam com vontade de infância e família. Filha de pastores missionários, pai chileno e mãe argentina, cresceu no Uruguai. Está há 26 anos no Brasil, todos eles como missionária de JOCUM. Chegou a Curitiba quando o roteiro estava sendo escrito, o da base e o dela própria, prestes a casar com um brasileiro. Mobilizadora do ministério Missões e Fronteiras ao lado do marido Arlis e com os filhos Davi e Karina, aquela que diz não ter sido chamada para nenhum país específico, atua nos bastidores de dezenas de homens e mulheres espalhados mundo afora. Uma fé daquelas que só lemos nos livros, ao conhecê-la, soube que trocaria todos para sentar e ouvi-la por mais um minuto. E não perderia nenhuma palavra…

 

O que é ser missionária?

Acredito que precisa ter um segundo chamado de Deus. Todos somos chamados para sermos filhos de Deus, para servi-lo, ouvi-lo e obedecê-lo. O segundo chamado é para estarmos separados para aquilo que Deus quer, como os levitas eram separados. Nisso, cada um vai se encaixando na vontade d’Ele. Lembro quando Deus me falou para ser missionária. Era adolescente e entendia que tinha que deixar tudo e ir viver pela fé. Pensava que iria sair e implantar igreja em algum lugar. Tinha ideia que não iria trabalhar pra me sustentar, Deus através do corpo de Cristo ia me sustentar. Entendia também que tinha que fazer um seminário e ser tipo uma pastora, ir pra algum lugar onde não se pregasse a Palavra, porque tinha esse exemplo dos meus pais. Agora, quando o Senhor me chamou pra JOCUM, algumas coisas continuam. Continuo obedecendo ao Senhor, tenho meu sustento de relacionamentos do corpo de Cristo, só que sei que posso fazer muito mais do que pensava na época.

Qual é seu chamado? Tem algum país específico?

Nunca tive chamado pra nenhum país e estou há 26 anos no Brasil (risos). Sempre digo que meu chamado é obedecer. O que Deus ia me falando, eu ia fazendo. Passo por passo.

Você se sente de qual nação hoje?

Eu me sinto de todas! Não sei. Argentina nunca vou deixar de ser. Amo o Uruguai. Brasileira… já estou aqui há bastante tempo, mais do que em qualquer outro lugar, pois vim para cá com 23 anos. Aprendi a estar onde o Senhor me coloca.

Se não tivesse sido missionária, o que faria?

Quando era jovem, gostava muito de Matemática. Ia fazer Economia. Depois de ser chamada, teve um tempo em que pensei: “Ah não Deus, acho que isso não é pra mim, eu não quero, gosto de Matemática mesmo, vou ser economista”. Meu segundo grau foi direcionado para Economia e terminei com as melhores notas. Quando contei para meus professores que ia fazer Psicologia, eles caíram para trás, não tinha a ver com exatas! Eu achava que era boa nisso e ia dar certo. Mas entendi que devia fazer Psicologia antes de ir pra missões. Na época não se falava muito em Psicologia. Lembro que Deus me guiou, coloquei algumas provas tipo as de Gideão e decidi agir em obediência. Deus me sustentou naquele tempo, não só agora em JOCUM, Ele sempre me sustentou. Hoje eu ajudo meus filhos com Matemática.

Qual foi sua maior dificuldade em missões?

Em relação a choque cultural, quando cheguei ao Brasil teve um momento que não aguentava mais ouvir as pessoas falando em português. Queria que todo mundo tivesse um botãozinho para apertar e fazer com que falassem em espanhol. Mas minha maior dificuldade sempre foi ter meus pais longe. Foi difícil para mim. Eu era a filha mais apegada a eles quando estava em casa, era a mais chorona, nunca queria viajar. E aí Deus me dá um chamado missionário! (risos). Mas Deus supriu de outras maneiras.

Pensou em desistir?

No primeiro ano pensei isso sim, mas não era desistir de missões, era voltar pra casa. Estava decidida a voltar e fazer seminário em Buenos Aires. Fui orar e Deus me falou que não era tempo. Aí decidi ficar. Foi a única vez.

Seus sonhos têm se realizado?

Meu sonho é o sonho que Deus tem pra humanidade: ver missionários brasileiros sendo mobilizados, chegando às nações e transformando-as com o evangelho. Estou dentro deste sonho e sei de uma coisa: se vivo cada dia bem, Deus vai me guiando e vou estar bem no dia que estiver vivendo no futuro. Sou do dia a dia. Sou muito de viver o momento da melhor forma possível.

Há diferença nos missionários de hoje?

Há diferenças porque as gerações mudam. Cada geração tem sua maneira de ser, de expressar.  As estratégias são diferentes. Na época nós saíamos evangelizar e tínhamos uns jograis apresentados aos gritos. Depois acrescentamos músicas e danças. Lembro das nossas primeiras peças, “Dois reinos” e “Fardo”. Nós éramos conhecidos pelas peças. Hoje somos conhecidos por outras coisas, porque JOCUM é muito mais que pintar a cara de branco e preto e apresentar peças evangelísticas. Porém, uma coisa não muda: todos os que permanecem aqui tem um chamado, porque se Deus chamou, é Ele que sustenta. JOCUM tem tantos tipos de pessoas. Cada um tem um sonho diferente. Essa diversidade é muito boa, muito linda. Hoje eu estava vendo as meninas do Anmoue dizendo que querem construir casas em áreas de catástrofe ou de risco. Parece loucura! Isso é JOCUM. Continuamos treinando gente que vai para lugares aonde ninguém nunca foi. Continua o que é o coração de JOCUM, nossos valores fundamentais: ter um chamado, ouvir Deus e fazê-lo conhecido. Você vai pra Deus, Ele te fala algo, você diz “Eu aceito o desafio”. Aí você está fazendo e logo estará acontecendo, porque Deus faz as coisas. É algo muito frutífero. Você se coloca às vezes como um pedacinho da história e se coloca como resposta de Deus naquele lugar e depois outros fazem. Você não precisa fazer toda a história.

Teve alguma experiência com Deus marcante neste tempo?

Sempre disse que meu chamado é obedecer. Então, ia obedecendo. Mas sempre senti saudades dos meus pais e tinha muita vontade de estar com eles. Eu orava: “Bom Deus, pra ver meus pais é uma questão de tempo e dinheiro. Como tudo depende de Ti, se tiver dinheiro eu vou”. Foi muito lindo quando Deus nos deu um tempo em 2008 com minha família. Viajamos pela Argentina e pelo Chile. Foi muito especial e me marcou muito. Foi muito lindo, um presente de Deus. Em 2009 meus pais faleceram. Às vezes a gente renuncia e renuncia e renuncia. Aí naquele momento entendi que Deus me falou: “Vou te dar este tempo com os teus pais”. A fidelidade de Deus comigo como pessoa foi muito linda. Em relação à missão, o que eu vibro e sei que a base inteira vibra é quando a gente envia algum missionário que vai pra um país para gastar seus anos e dar sua vida ali. Isso é o que há de melhor na missão, ver que foi Deus que levantou e enviou.

Como mobilizadora, qual você acha que é o maior desafio dos missionários de hoje?

Creio que é entender claramente a voz de Deus. Já vi missionários aqui saindo para ir para os lugares e, de repente, já não tendo mais certeza de que deveriam ir. O principal é você saber: “Deus quer que eu vá”. E às vezes acho que a gente fica um empurrando o outro no entusiasmo, mas se a pessoa entende que é Deus querendo que ela vá, ela vai poder compartilhar com outras pessoas. Ela terá pessoas que vão orar por ela, sustentá-la, apoiá-la, porque ela está convicta do que Deus quer dela. Depois é só ir em frente. Se a pessoa tem convicção de Deus, as outras coisas virão.

O que esta base é para você?

É a facilitadora de ministérios. O que nós temos nesta base não podemos deixar de ter em outras nações. É como se a gente olhasse aqui, e vamos ter projetos, mas sabendo que Deus também vai nos abençoar pra ter isso lá em Moçambique, por exemplo. Tem uma conexão daqui pro mundo. Muitos obreiros daqui estão fora. Quando enviamos alguém é o momento de vibrar, porque parece que estamos nos encaixando naquilo que Deus quer. Temos que ter alguma coisa nas nações, abençoando do outro lado do mundo. Há uma herança aqui muito forte do Laurenildo. Quando estavam comprando esta base, dois casais que trabalhavam com ele chegaram e disseram que Deus os estava chamando para a Rússia. O Laure respondeu: “Podem ir”. Ele precisava deles aqui, mas porque Deus os estava chamando, decidiu abrir mão, porque o que Deus tem é maior. Ainda temos esta marca, de estarmos dispostos a abrir mão. É o lugar em que as pessoas chegam, fazem, negociam e vão embora. É uma base de operações. Não é um lugar pra vir e ficar. Estou aqui porque Deus não me mandou sair ainda. Quando Ele mandar, eu vou (risos). Daqui Deus envia pessoas pra todos os lados. Somos sem fronteiras. A gente escuta Deus e vai.

Neste trabalho de chegar aonde o evangelho ainda não chegou, você está tornando a Bíblia e a Grande Comissão reais em nossos dias. Como é fazer parte disso?

Sinto-me exatamente no lugar em que Deus me criou para estar. Tem algo bem especial nisso (emociona-se)… Quando meu pai estava morrendo, olhei pra ele e falei: “Andá papá, podes ir”. Sei que ali, diante de Deus, eu o liberei. Eu lhe disse: “Nós vamos continuar pregando o evangelho”. Meu pai viveu pra isso, minha mãe também. Aquele momento foi pra mim como um novo compromisso. Enquanto eu viver, vou terminar isso. Vou continuar pregando o evangelho.

Texto introdutório e entrevista: Eliceli Katia Bonan

Fotos: Davi de Souza

Inicialmente publicado em JOCUM Curitiba

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