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Carta

Lia “Cartas a D.”, de André Gorz, abrindo o coração para a esposa Dorine, e peguei-me pensando em cartas.

Como boa romântica, prefiro-as aos e-mails, telefonemas ou conversas que sejam. Tenho inúmeras, guardadas a sete chaves numa caixa e em meu coração. Amizades construídas por palavras, questões resolvidas, explicações dadas, decisões tomadas, amores interrompidos, notícias contadas e recebidas.

Com cartas, Paulo fundamentou o Cristianismo. Com cartas, C.S. Lewis falou-nos de sentimentos, anjos e demônios. Com cartas, nações foram construídas, leis escritas, mudanças realizadas. Elas não apenas fazem a história. São história.

Pensando em cartas, que prazer foi ler o texto de uma amiga, sobre cartas. É daqueles com cheiros e gostos, em que cada palavra carrega uma lembrança. No fim, um sentimento gostoso e uma  conferida apressada à caixa de correio.

O texto é de Giane Paiva, my internacional friend aspirante a cronista.

 

O carteiro (e a carta)

Por Giane Paiva

Ele acorda às 5h30, toma café. Veste sua enfadonha roupa azul e amarela. Põe o boné e vai para a rua. Pega dois ônibus, ambos lotados, até a central. Lá pega o malote.

Ele poderia ter um emprego qualquer, comum, mas não tem. É carteiro! Carteiro não é apenas um cidadão que paga impostos e carrega papéis e revistas. Ele é um distribuidor e compartilhador de emoções, pois sua tão abastada bolsa borbulha de sentimentos.

Os adeptos e usuários de computadores e telefone que me desculpem, mas notícia boa mesmo, só por carta. Ela possui uma magia inigualável. Nela os dedos distantes se tocam, existe a personalidade única da letra, o cheiro que impregnou o papel, ou a marca da lágrima que rolou da face emocionada do escritor, deixando o papel levemente enrugado.

Cartas são documentos mui preciosos. Verdades e mentiras nelas são arquivadas, vidas são tocadas e almas desnudadas. A astuta coragem é achada, o amor aflora, permeando os escritos. Promessas são eternalizadas, corações são consolados. Segredos são decifrados, as letras perfuram o íntimo, o leitor perde toda a calma.

A sua mensagem é para ser sempre lembrada, e o papel permite ler e reler até a exaustão. Acho até que todo carteiro deveria ser psicólogo, sim, para ajudar as pessoas na ânsia a prior das cartas e na triste realidade pós-cartas.O mensageiro postal mexe com as emoções das pessoas e nem sabe disso. Traz a cura para uns e doença para outros. Mostra friamente se fomos lembrados ou esquecidos. Como dizer que seu trabalho é simples? Seria desvalorizar as sentimentalidades humanas.

Cartas são cartas. Quem nunca as esperou e as aguardou , mesmo que num romance juvenil? Os presos que o digam, eles sabem seu valor. Digo não apenas os encarcerados, detentos, mas os que estão presos a uma última esperança. Aqueles que aguardam respostas, aprisionados às palavras. Palavras essas que os impedem de viver, usufruir do amor ou da simples liberdade de escolher, pelo que faltou ser dito e entendido.

Dizer que o carteiro tem um só trabalho seria um terrível desdem, pois é polivalente, mesmo que inconsciente. É de contador a professor, tudo depende do dia e do material que vai entregar. Acima de tudo, é um compartilhador e distribuidor de emoções.

Depois de um cansativo dia de trabalho, volta ao lar. Ao seu. Como os demais, entra em casa, senta, tira os sapatos, põe o pé para cima. Liga a TV e pergunta:

– Mulher, chegou carta pra mim?

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