espiritualidade e vida cristã · missio dei

Apague as luzes ao sair

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Quando sou convidada para falar para jovens, gosto de inspirá-los a fazer a diferença onde estão. Costumo começar minhas falas com a seguinte dinâmica: peço que tirem seus celulares do bolso e mexam com ele para que a tela brilhe. Enquanto estão fazendo isso, faço a observação de que por mais celulares que se tenha ali, eles não fazem muita diferença na iluminação da sala. Em seguida, apago as luzes e peço que, um a um, repitam o que fizeram antes. Agora sim, aos poucos, pequenos fachos de luz enchem a sala e vão mandando embora a escuridão. Dá para saber exatamente quem tem um celular e quem não tem!

Desde que saí do Brasil, as informações que chegam até mim da minha querida pátria vêm todas por meio de sites de notícias e de redes sociais. Vejo tudo da varanda. Nunca antes tinha enxergado o Cristianismo no Brasil com a perspectiva que vejo agora…

Nós vivemos um Cristianismo dicotômico, que divide profano e sagrado, mundo e igreja, Deus e diabo. O risco disso é sermos tomados pela chamada “síndrome de povo escolhido” que nos faz acreditar sermos melhores do que o resto do mundo porque somos cristãos. A Bíblia diz que somos todos essencialmente iguais, pois Deus criou TODOS os homens à Sua imagem e semelhança (Gn 9.6) e aí repousa a dignidade humana. Para Deus, não há acepção de pessoas, pregamos. Porém, na prática, consideramos alguns dignos e outros indignos. Jesus sentava-se para comer com publicanos (homens corruptos) e pecadores. Mas nós só nos sentamos entre cristãos porque sentar com quem é “do mundo” pode nos contaminar. Enquanto o mundo peca, nós nos “retiramos”.

Para mim, mais do que tudo, essa é uma questão de identidade. Quando alguém é inseguro sobre sua identidade, precisa esconder-se atrás de muros proteção com medo de que outros o descubram, já que nem ele sabe quem realmente é. Sei como é isso. Vivi por muitos anos atrás dessas paredes. Pergunto-me se este medo que temos das “coisas do mundo” não seria uma proteção que demonstra o quanto somos inseguros em nossa identidade cristã! Tão logo começamos a frequentar uma igreja, criamos um alto muro de SEPARAÇÃO. Assumimos um novo discurso e todos aqueles que não estão do nosso lado são “os outros”. Quanto mais nos afastamos, mais perigosos eles parecem!

Insegurança sobre a própria identidade. Foi assim que começaram muitas guerras ao redor do mundo! Quando eu não sei exatamente quem sou, mas sei quem eu não quero ser, então olho para todos aqueles que se parecem com o que não quero ser e os torno meus inimigos. Mas se meu senso de identidade é forte o suficiente, então não há problema algum em “misturar-me” com o diferente, porque o diferente só tornará as minhas características pessoais ainda mais fortes. Viver na Inglaterra não está me fazendo deixar de ser brasileira. Pelo contrário: está reforçando minha identidade latina. Neta de imigrantes italianos, é verdade, mas criada em terras tupiniquins, convivendo com indígenas e caboclos, falando português, comendo churrasco e feijão com arroz. Sou brasileira de sangue, alma e coração. E não há nada mais desconfortável do que estar numa terra que não é a minha, falando uma língua que não é a minha, tomando chá com leite sem açúcar quando o que eu gosto é café forte, preto e com o máximo possível de açúcar!

Será que nos trancamos em nossas igrejas porque é desconfortável demais estar com quem é diferente, que não crê da mesma maneira que cremos, não fala da mesma maneira que falamos, não rege sua vida pelos mesmos princípios que vivemos? Ou será que temos medo de descobrir que se estivéssemos “no mundo” estaríamos vivendo da mesma forma que aqueles que reprovamos? O que nos deixa com tanto medo? Descobrir a nossa humanidade?

Santidade, para mim, é ser como Jesus. Jesus deixou a glória do céu para ser Deus conosco. Só quem é muito seguro sobre quem é pode esvaziar-se de si mesmo e fazer-se um com o outro, porque quando nos misturamos é aí que nosso caráter realmente aparece. Se somos insípidos, logo seremos conhecidos. Mas se o que pregamos for real em nossa vida, então meu amigo não há nada que incomode mais do que um colega de quarto mexendo no celular quando todas as luzes estão apagadas e é hora de dormir!

Hitchin, Inglaterra – 11.03.13

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