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Para escrever a eternidade

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“Deus caminha com a gente e vai dando os passos, mostrando o caminho. Só o que Ele pede é obediência”

“Acho injusto ter povos que ainda não ouviram falar de Jesus. Quando estive na Índia, andava de trem e perguntava: “Você já ouviu falar de Jesus?”. E as pessoas confundiam Jesus com um prato de comida!!!”

“Missões, pra mim, fala de como encaro a vida. Quero viver de uma forma tão íntima com Deus que eu consiga ser a resposta certa, pra situação certa, no momento certo”

Ela é, com certeza, uma contadora de histórias. Cada frase sua, carregada de expressões, termina com uma exclamação! Dá para ver as cenas, sentir os cheiros, provar os sabores das coisas quando ela começa a descrevê-las. Sua visão romântica do mundo dá a tudo uma dramaticidade que encanta, cativa e faz querer saber mais. Profunda, de uma forma alegre e divertida, seu jeito sonhadora chama a atenção e ela não precisa fazer muito para influenciar. Estilo de baiana, nascida no Rio de Janeiro, criada em Goiás, considera-se brasileira. Está há 19 anos em JOCUM. Há 11 em Curitiba, o lugar que chama sua casa, a base que ela representa tão bem e cujo nome sugeriu. Antes de conhecê-la, a primeira palavra que se ouvi sobre Silvana foi: ela é “engraçada”. Posso dizer que “engraçada” não diz tudo. Aliás, quase nada! Muitas palavras ainda não diriam tudo. Aqui, Silvana fala de chamado e sonhos, sobre ser mulher em missões e sobre a oportunidade de marcar a história fazendo parte da Grande Comissão.

Você sonhava em ser missionária?

Quando tinha sete anos, achava a vida de crente tão sem graça. Eu pensava: “A vida não pode ser só isso. De casa pra escola, da escola pra casa, de casa pra igreja. Tem que ter algo mais”. Um dia ouvi uma mensagem sobre Davi, dizendo que ele tinha marcado sua geração. E eu tinha isso de querer passar pela vida como Davi, marcando minha geração. Mas não sabia se seria missões ou o quê. Com 11 anos, pensei em entrar para o grupo Vencedores por Cristo, porque eles viajavam.

Você canta?

Sou afinadinha, mas não tenho voz não. Porém sempre tive esse negócio de viajar e falar de Jesus, apesar de não achar que seria missionária. Entrei em JOCUM porque queria fazer um curso de aconselhamento pra trabalhar com adolescentes. Nunca fiz o curso. Na minha ETED, tinha vários que não tinham chamados específicos. Até tinha uma pressão: “Como assim não tem?”. Pra mim está tudo bem não ter. Eu só vim saber mesmo meu chamado quando faltavam dois dias pra formatura, porque foi só na ETED que entendi missões e povos não alcançados. Não vejo nisso um problema, porque Deus caminha com a gente e vai dando os passos, mostrando o caminho. Só o que Ele pede da gente é obediência.

E o que você entendeu como chamado em sua ETED?

Entendi que devia trabalhar com povos não alcançados. O Jimmy (Jim Stier) estava dando aula de missões. Ele leu Isaías 66.20, que fala que trarão, dentre todos os povos, as almas de nossos irmãos por presente ao Senhor. Entendi e decidi dedicar minha vida pra preparar este presente para Deus. Alguns anos depois, quando eu fiz EPOL (Escola de JOCUM para Obreiros e Líderes), Deus me deu Romanos 15, onde tem o chamado de Paulo. O que me chama atenção é quando ele diz que não edificaria sobre fundamento alheio. É como se fosse o meu chamado. Entendi que iria aonde nunca tinham ouvido falar de Jesus. Depois de um tempo, Deus foi ampliando meu entendimento deste chamado, porque se Ele falasse tudo naquele tempo, eu não ia entender nada (risos)! Deus em cada época me dá um entendimento específico deste chamado. Outro dia, conversando com Jimmy sobre isso, eu falei: “Ai, Jimmy, ainda que eu nunca mais saia do Brasil, quero morrer levantando esta bandeira pelos não-alcançados”. Meu coração é linha de frente, mas é como se meu chamado fosse de ser retaguarda. Por mais que eu queira estar lá, Deus me segura aqui. Mas enquanto estou aqui, eu fico espalhando este vírus de não alcançados pras pessoas irem.

Como é isso, você quer estar lá, mas Deus te segura aqui?

Entendi que tinha um chamado pra ir pra Índia, mas demorou muito pra chegar lá. Trabalhei em Contagem enviando equipes pra Índia. Na viagem da primeira equipe, uma menina me deu a palavra de que por eu estar renunciando meu Isaque, Deus ia me dar muito mais. Na época não gostei e não entendi. Mas depois que fiquei cinco anos no Projeto Índia, conseguimos mandar 22 pessoas, e eu entendi que tinha de estar onde Deus queria que estivesse. Nesta estação, que está durando mais de tantos anos, dou mais frutos aqui do que estando lá. Entendi que 22 pessoas fazem um trabalho melhor do que uma só. Realmente tenho um coração mobilizador e não posso negá-lo.

Você comentou que seu chamado também tem a ver com justiça. O que entende por justiça?

Quando eu fiz EEB (Escola de Estudos Bíblicos), descobri que nosso conceito de justiça não tem nada a ver com o que Deus pensa de justiça. Pra mim, rudemente falando, a justiça de Deus é um misto de justiça, graça, amor, juízo, misericórdia e perdão. O julgamento de Deus visa restaurar a situação original da pessoa. No mesmo momento em que há juízo, há misericórdia, graça, tudo junto. Esse entendimento nós não temos. A gente categoriza. Ou é justiça, ou é misericórdia, ou é graça. Nós entendemos justiça como vingança, ou punir aquele que causou o mal. É uma coisa assim meio que de tribunal. Mas em várias passagens bíblicas o que pra nós é um julgamento, do ponto de vista de Deus é um ato extremo de amor. Então, em minha busca pela justiça na Bíblia, encontrei esse Deus da graça. Isso mudou meu conceito. Pra Deus é algo maior. Isso me dá esperança, pois mesmo em meio a um julgamento de Deus, ou uma justiça que precisa ser imposta, nunca vai faltar graça, amor e misericórdia. É isso que reflete quem Deus é.

Povos não alcançados e justiça. Como eles se relacionam? E o que tem a ver com o que você faz hoje?

Acho injusto ter povos que ainda não ouviram falar de Jesus. Quando estive na Índia, andava de trem e perguntava: “Você já ouviu falar de Jesus?”. E as pessoas confundiam Jesus com um prato de comida!!! Andava quilômetros e quilômetros de trem e não via uma igreja, não cruzava com nenhum cristão. Lembro-me da Carta Magna, quando fala que toda pessoa tem o direito de ouvir e entender o evangelho na sua língua. Abraço esta causa também por uma questão de justiça. É justo que todos os povos tenham acesso ao conhecimento de Deus. No momento, estou trabalhando com treinamento. Meu chamado maior é para os não alcançados. Agora, como eu vou viver e expressar este chamado é uma coisa que vai mudando de acordo com as estações que vou vivendo com Deus. Neste momento, Deus me falou que uma das formas de exercer justiça é através do treinamento, você identificar potencial na vida de alguém, chamar aquele potencial pra fora, lapidar e liberar a pessoa pra cumprir o destino dela em Deus. Isso é fazer justiça.

Pode falar um pouco da Silvana missionária?

Missões, pra mim, fala de como encaro a vida. Isso arde em meu coração. Quero viver de uma forma tão íntima com Deus que eu consiga ser a resposta certa, pra situação certa, no momento certo. Teve um tempo que estava estudando sobre como viver o poder do Espírito Santo e ser como Jesus. Jesus andava com tanta intimidade com o Pai que na hora em que alguém estava enfermo, Ele colocava a mão e curava. No caminho, Ele encontrava endemoninhados e libertava. De repente, o povo estava com fome e Ele multiplicava o pão. Alguém precisava pagar o imposto e Jesus tinha o dinheiro pra pagar. Isso é ser guiado pelo Espírito. O missionário é aquele que leva as boas novas, mas também é aquele que vai guiado pelo Espírito Santo. Ele tem o compromisso de ir aonde Deus mandar ir, e falar o que Deus mandar falar, e fazer o que Deus mandar fazer. E eu só vou conseguir ser isso, essa resposta certa na hora certa, tendo intimidade com Deus. A Ana sempre fala pra mim que na nossa vida tudo vem e passa. O único fator constante é Deus. Então é pra Deus que eu vivo. Se tenho intimidade com Ele, a Bíblia fala que o Senhor revela os segredos d’Ele aos seus servos, os profetas. Creio que Ele vai me mostrar como ser resposta. Pra mim, essa é a Silvana missionária. Às vezes eu falho, dou cabeçadas, mas o que bate no meu coração é viver com Deus de forma tão intensa, e ao mesmo tempo tão simples, que essa resposta se dará de forma natural. Jesus não parava pra fazer uma ação de milagres. Ele curava muitas vezes sem ter intenção de fazer isso, como com a mulher com fluxo de sangue. Às vezes, até sem intenção, posso ser resposta de Deus pra alguém que está precisando e isso me fascina. É meio complicado, mas é porque sou toda assim complicada, meio complexa, toda dramática!

O que é mais surpreendente na vida missionária?

Ai gente, eu gosto demais de saber que o mundo é minha casa! Saber que o mundo não é pequeno e saber que tenho uma resposta verdadeira aos questionamentos dos povos, que é Jesus. Tanta coisa pra mim é surpreendente! Mas me surpreende muito este valor de JOCUM de ouvir a voz de Deus. O Deus do universo compartilha comigo os sonhos dele e me capacita a tornar este sonho realidade. Quando faço intercessão, busco uma carga e Deus fala alguma coisa eu acho fascinante. Deus compartilha comigo o que Ele quer! Ele compartilhou comigo os povos. Então toda vez que eu cruzo a fronteira do Brasil pra qualquer coisa, estou em casa. Ver esta beleza dos povos, o que Deus deixou impregnado em cada cultura, os dons dos povos, isso é fascinante! As pessoas vão pras nações e ficam amarrando os capetas: “Ah, tem capeta aqui, tem capeta ali”. Muitas vezes elas só veem o lado ruim, o dano que o diabo causou. Não desconsidero a batalha espiritual, mas gosto de ver as coisas bonitas. Fico curiosa e fascinada em saber o que Deus sonhou com cada povo. Deus tem uma revelação contida em cada povo e Ele espera que a gente ajude a clarear esta revelação.

O que é mais difícil em missões?

Se eu falar pra você que tem alguma coisa difícil, é quase mentira. Mas pra mim, uma grande dor é a divisão nos relacionamentos. É uma grande perda, isso de perder parceiros por algum engano que entrou e impediu de continuar a caminhada juntos. É um prejuízo muito grande para o Reino. Muitas coisas ficam mais devagar por causa de relacionamentos que quebraram. Às vezes, todo um sonho de Deus se esvai pelos dedos por falta de perdão, ou por falta de uma reconciliação.

Nesses 19 anos de missões, teve algum momento em que você se arrependeu ou pensou em desistir?

Teve não. Se eu falar que pensei em chutar o balde, vou mentir pra você.

Qual é seu maior sonho?

Meu maior sonho é o aquele de Isaías 66. Minhas respostas estão muito espirituais, né? Mas meu sonho é dedicar minha pra ver os povos conhecendo Deus. Eu imagino assim: quando Jesus voltar, vai ter tipo um anfiteatro e eu vou estar no camarote. Aí Ele vai ficar chamando as pessoas. Eu vou ver quando Ele chamar o Loren (fundador de JOCUM) e perguntar: “O que você tem pra me oferecer?”. E o Loren respondendo: “Ah, eu tenho estas nações aqui”. Sonho em ver as nações que vão estar lá e saber que, de alguma forma, tive participação nisso. É este sonho que me move, o maior que tenho.

Como é ser solteira em missões?

Trabalho com muitas solteiras. Também sou solteira, tenho desejo de casar. Já ouvi muitas moças falarem: “Só vou pra tal lugar se for casada”. Na minha cabeça, sempre achei muito injusto pedir isso pra Deus. Porque Deus me ama, Ele é meu Pai. Ele sabe que se não vou dar conta de um lugar sendo solteira, Ele vai me dar um marido. Agora vai que tenho condições de ficar sozinha e digo pra Deus que só vou fazer se tiver marido! Aí eu desobedeço Deus!!! Deus cuida de mim, solteira ou casada. Quando chegar a estação de estar casada, Ele vai me dar alguém. Tenho muito medo de limitar Deus ou achar que Ele não pode me revelar algo por estar solteira.

E a Silvana mulher?

É uma área que precisa de muito cuidado. Na missão, a gente aprende a ser guerreira, a ir pra batalha, e às vezes esquecemos nosso lado mulher. Aprendi que colocar o que você faz como prioridade em sua vida é idolatria, porque você se torna aquilo que faz. Teve uma época que me tornei JOCUM Curitiba, com todas as coisas boas e ruins que isso trazia. Deus me confrontou nisso como sendo idolatria. Quando olhei pra mim, não tinha mais nada lá. Não sabia quem era a Silvana. Não sabia o que gostava de vestir, que música gostava de ouvir. A única coisa que eu sabia era que gostava de comédias românticas (risos). Tive que fazer uma viagem pra dentro de mim mesma e descobrir quem eu era em Deus, ter minha identidade restaurada, ter meu “eu” de volta, porque estava diluída. Foi aí que a Silvana mulher despertou. A Silvana mulher… Às vezes as pessoas nos rotulam por aquilo que a gente faz e não gosto disso. Quando você ocupa uma posição de liderança, essa posição não define quem você é. É apenas um chapéu, ou uma função que você desempenha para servir outros. Mas eu me vejo como uma moça comum… não, comum não, eu não gosto do comum! (risos). Não nasci pra ser uma na multidão! Minha personalidade e meu cabelo dizem isso. Gosto de coisas diferentes e gosto de me sentir singular. Eu sou a Silvana sem chapéus.

Você ainda deseja pisar em alguma nação específica?

Tenho uma paixão pela Ásia, ao mesmo tempo quero ir pra África. Mas, para meu lazer, pra cumprir um sonho de infância, quero conhecer a Suíça e comprar um chocolate na fábrica de chocolates!!! Mas isso não conta não (risos)! Quero estar ainda em muitas nações. Gosto de verdade das cores, culturas… não sei explicar. Tanto é que não tenho muito choque cultural quando vou. Quando eu volto aí é que sofro. A comida perde o sabor, o mundo continuou sem a minha pessoa, sem me pedir permissão, eu demoro um tempo pra voltar ao normal. Gosto de ir, não gosto de voltar.

Como você se sente fazendo parte da Grande Comissão?

Me sinto privilegiada, me sinto honrada, me sinto como se tivesse ganhado na loteria! Não, não pode falar “na loteria” (risos)! É tão legal porque estou vivendo, dando 100% de mim, por uma causa que é eterna. Aquilo que faço está alterando a eternidade de pessoas. Pra mim é uma honra mesmo, dentro de tantos que Deus poderia ter chamado, Ele me chamou, mesmo sendo uma “desdondada”. É um privilégio de verdade! Não é uma causa passageira. A eternidade está sendo escrita. Está soando tudo meio utópico, né? Mas eu vejo a vida assim.

Por que “desdondada”?

Tem gente que é boa em computador, tem gente que é boa em música, tem gente que é boa num monte de coisa. Eu não sou, minha filha! O que eu sou boa, acho que sou uma boa contadora de histórias. Mas, no geral, falo que sou “desdondada” (risos).

Você é a criadora do nome desta base de JOCUM. Por que Sem Fronteiras?

Eu sou, com muito orgulho (risos)! Esta base aqui é minha casa, é o lugar onde meus sonhos estão sendo gerados e onde ajudo outros a gerar sonhos. É como diz: “De todos os lugares, para todas as direções”. As pessoas vêm aqui de vários lugares para serem “empoderadas”, seja através de ministrações, de treinamentos, para depois serem lançadas com tudo para o destino delas. É um lugar com espaço pra isso. Eu encontrei esse espaço. Quando cheguei aqui, fui percebendo que o chamado desta base é igual ao meu. Deus, ao me chamar, disse que eu seria ponte pras nações e uma incubadora de sonhos. Teve um momento que colocaram no papel as palavras pra base e saiu “ponte pras nações e incubadora de sonhos”. Eu falei: “Então aqui é a minha casa!”.
Sem Fronteiras porque a base estava passando por um tempo de mudar o nome. Eu estava orando e me veio claramente “Sem Fronteiras”. Eu falei: “Faz sentido!”. No outro dia, chamei o líder da base e disse: “Vou te falar uma coisa. Sei que você não vai me ouvir, mas quero deixar registrado. O nome que tenho pra base é Jocum Curitiba Sem Fronteiras. Ponto”. E saí. Tinha certeza que ele não ia me ouvir, porque só depois me toquei que é o slogan da TIM. Mas não foi inspirado na TIM, não (risos)! É bom saber que este nome também representa quem eu sou. Veja que não mudou. Eu sou a cara de Jocum Curitiba! Soou prepotente isso aí, né? Mas é como sinto em meu coração. Deus me presenteou em fazer parte de uma base que casa com meu chamado.

Texto introdutório e entrevista: Eliceli Katia Bonan

Fotos: Davi de Souza

 

Inicialmente publicado em JOCUM Curitiba Sem Fronteiras

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