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No amor e na guerra

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“A guerrilha preparou uma estratégia pra cercar a cidade de um jeito que a gente não conseguiria mais sair por terra. Ele nos expulsaram. Nós tivemos que deixar tudo. Saímos com a roupa do corpo, de carona com um avião dos Médicos Sem Fronteiras. Foi uma cena de filme. O avião chegando, nós correndo até lá…”

“A maior luta que enfrentamos em missões somos nós mesmos e nossa dificuldade de viver aqueles princípios que pregamos tanto, de perdão, de renúncia, de amor incondicional”

“Vão! Ouçam Deus e obedeçam. Fiquem aqueles que Deus quer que fiquem, mas eu acho que a maioria vem pra ir e não pra ficar”

Gaúcha, nascida na bela Canela, sua vida ainda vai inspirar algum roteirista que a colocará num daqueles longos filmes de histórias de amor e guerra – amor por Cristo, guerra para estabelecer Seu Reino. Há 21 anos, ela, o marido Marcos e mais quatro missionários foram para a Angola, sem saber ao certo o que os esperava. Nos primeiros anos, os dias eram ocupados com o cuidado das vítimas da guerra, fosse distribuindo alimentos aos famintos ou amor aos órfãos. De forma radical e intensa, ela participou da história de Deus para aquela nação. No meio do caminho, a morte do marido a fez questionar se aquele era realmente seu lugar. Porém, logo a voz do mestre deixou-a pronta a obedecer novamente e voltar para a Angola. Respeitada hoje como uma das pioneiras de JOCUM Brasil, Márcia Gomes conta sua história de amor com o Deus ao qual quer sempre obedecer e fala dos desafios que enfrentou ao longo da vida para ver Sua vontade realizada.

 

Como foi seu chamado?

Eu me converti no final da minha faculdade. Fizemos o curso de Educação Física juntos e ele pregou pra mim, é o meu pai na fé. O Arlis, um amigo da faculdade, me levou para a missão Ágape. Esse contato com aquele pessoal que já era missionário, logo que me converti, foi bem importante para meu chamado, porque vi no estilo de vida deles o que eu sonhava pra minha vida. Quando entendi o sacrífico de Jesus, decidi viver pra Ele da mesma forma que tinha vivido para o pecado: radical e intensa. O pessoal do Ágape tinha esse estilo de vida e aquilo me contaminou. Logo em seguida fui pra JOCUM em Florianópolis. Meu amigo Marcos estava fazendo ETED (treinamento inicial em JOCUM) e entendi que Deus queria que eu também fosse. Quando terminei a ETED, tinha convicção de que JOCUM era meu lugar. Eu e o Marcos começamos a namorar e nos casamos quatro meses depois. Ele já tinha um chamado pra Angola, nós oramos sobre isso e eu entendi que se Deus estava me unindo ao Marcos, Ele também estava me chamando pra Angola. Ainda não tinha uma palavra específica, mas sempre tive vontade de trabalhar na África, entre os pobres, nos países em guerra, tudo isso me chamava muito a atenção.

Quando foram para a Angola?

Em 1988, fomos para Contagem para fazer EPOL (escola de JOCUM para novos líderes) e durante a escola Deus falou comigo sobre a Angola. Na EPOL criamos o Projeto Angola, algumas pessoas se juntaram com a gente e terminamos com uma equipe. Naquela época só tinham saído três projetos internacionais do Brasil, para Guiné Bissau, São Tomé e China. O Jim Stier orou pela gente e colocou o Marcos como líder da equipe. Depois de um ano e pouco de divulgação, levantamento de sustento e contato com as igrejas, fomos para a Angola. Éramos seis brasileiros. Fomos pra Angola em maio de 1991. Não existia JOCUM em Angola e fomos com o propósito de estabelecer a missão lá. Porém, nós entramos no país oficialmente debaixo de uma organização europeia chamada Ora Internacional. Fizemos parceria com eles. A Ora é uma missão de ajuda humanitária que trabalha em países em situações de crise, como guerra. É uma organização alemã e portuguesa. A princípio, fomos gerenciar os projetos deles de ajuda humanitária nos locais de guerra.

E quando chegaram lá, como foi?

Naquele tempo, nós não tínhamos internet, não tínhamos como ter informações. Sabíamos que a Angola estava em guerra, num momento bem complicado, mas a gente nem tinha ideia do que isso significava. Nós nem tínhamos noção do que nos esperava. Graças a Deus, porque se soubéssemos de tudo não sei se teríamos ido! (risos). Quando falava em guerra tudo que imaginávamos era o que tínhamos visto nos filmes. Nós não tínhamos noção do que é estar numa zona de guerra. E Deus foi capacitando a gente.
Fomos morar numa cidade no interior do país, chamada Ganda, porque foi pra lá que a organização nos enviou. Era o local que eles tinham como foco para o trabalho humanitário, pois era uma das regiões mais carentes de Angola. Havia muita miséria e muita gente morrendo, por causa da fome, porque fazia cinco anos que não chovia, e por causa da guerra. Um lugar bem perigoso.

Como trabalhavam neste começo?

Essa Ora Internacional mandava contêineres com comida, remédios e roupa. Nosso trabalho era fazer isso chegar ao povo. Era uma logística imensa. A Ora tinha toda a infraestrutura de caminhões e armazéns e nós administrávamos tudo. Nós distribuíamos nas aldeias. Trabalhávamos em mais de 50 aldeias, algumas bem isoladas. A gente chegava com o caminhão numa aldeia, fazia a distribuição e saía correndo, para não sermos atacados pelos rebeldes. Foram dois anos de trabalho bem intenso só distribuindo bens nas aldeias. O hospital da cidade tinha sido destruído e não havia nenhum médico. Nós recebíamos muitos remédios e material de primeiros socorros e não tinha onde entregar aquilo. Decidimos atender os doentes, mesmo que nenhum de nós tivesse formação nesta área. Nós estudávamos seguindo aquele livro “Onde não há Médicos”. Fazíamos curativo, medicávamos para malária e cólera, atendíamos crianças desnutridas e cuidávamos delas, fazíamos parto, a gente fez de tudo! Nossa casa virou um hospital. Nós não fazíamos internamento, mas atendíamos a todas as pessoas que chegavam até nós.
No final de 1992, teve eleições em Angola pela primeira vez na história. Houve um período de paz. A ONU estava lá e organizou as eleições. O primeiro turno foi em outubro de 1992 e o líder da guerrilha não aceitou o resultado. A guerra recomeçou. Nunca aconteceu o segundo turno. Foi aí que a guerra ficou bem intensa, como nunca antes. Nesta época a Angola estava em todos os jornais do mundo. Na nossa região também a guerra se intensificou muito e nós fomos expulsos de lá pelos guerrilheiros. Eles deram uma desculpa, disseram que não queriam saber de estrangeiros, porque se morressem estrangeiros seria culpa deles. Isso é verdade, mas também tinham outros motivos.
A guerrilha não nos tratava mal. A gente já tinha convivido com eles por um bom tempo em outras ocasiões em que eles tomaram a cidade, depois perderam, trocando de líder e etc. Além disso, eles também queriam as nossas coisas, nós tínhamos muitos contêineres de comida, muita roupa, muito remédio, combustível e eles não tinham mais nada. Então, prepararam uma estratégia pra cercar a cidade de um jeito que a gente não conseguiria mais sair por terra e nos expulsaram. Nós tivemos que deixar tudo. Saímos com a roupa do corpo. Foi uma cena de filme. O avião chegando, nós correndo até lá…

Vocês estavam sendo ameaçados?

Eles nunca antes tinham nos tratado mal. Mas quando vieram nos dar a ordem de que a gente tinha que sair e nós falamos que não queríamos sair, aí eles foram diretos e disseram: “Vocês têm que sair”. Nós argumentamos que não tínhamos como sair, porque as estradas estavam bloqueadas, eles tinham explodido as pontes. Eles falaram: “Vocês pegam o rádio, ligam pros diretores de vocês na capital e pedem pra eles mandarem um avião pra vocês”. Nós respondemos: “Nós não temos rádio, não temos diretores e não temos avião” (risos).  Eles não acreditaram. Ficaram se perguntando como alguém manda um grupo de estrangeiros pra aquele fim de mundo sem um rádio e sem socorro! Aí nós falamos: é a JOCUM (risos). Eles não acreditaram mesmo, ficaram bravos. Nós entramos em contato com os Médicos Sem Fronteiras, que tinham todos esses recursos. Eles já trabalhavam na cidade nesta altura e também foram expulsos. Como o avião deles já estavam cheio, nós não tivemos como levar nada.

Para onde foram?

Depois disso, a gente se estabeleceu no litoral, na cidade de Lobito, que é onde até hoje fica a base mãe de JOCUM na Angola. Ali continuamos trabalhando com ajuda humanitária, mas agora socorrendo refugiados. Milhares de pessoas fugiram do interior do país e se estabeleceram no litoral, onde era mais seguro. Foi aquela fase do governo precisar organizar acampamentos e nós trabalhamos bastante nisso também, com distribuição de comida e gerenciando acampamentos de refugiados. Nesta fase, trabalhávamos com a Ora e com a ONU. Trabalhamos muito com a ONU em todos esses anos. Eu gerenciei um campo de refugiados com 12 mil pessoas. Nós gerenciávamos o campo, o Programa Alimentar Mundial dava a comida, a Unicef dava a água, a Oxford construía as latrinas. Era um trabalho em conjunto, coordenado pela ONU. Foi mais um ano e pouco de trabalho neste contexto.

Quando iniciaram os treinamentos de JOCUM?

No final de 1993, nós rodamos a nossa primeira ETED lá em Lobito. A partir daí começamos a ter mais obreiros e dali pra frente fomos nos desligando da Ora Internacional. Queríamos trabalhar com treinamento e com alcance de povos não alcançados e ainda em 1993 nós tivemos o primeiro contato com um povo não alcançado, um grupo étnico de Angola, o povo mucuando, numa aldeia bem isolada no alto de uma montanha. Trabalhamos com eles nos 13 anos seguintes.
Quando a base de Curitiba adotou o Projeto Angola, começamos a ter muitos obreiros brasileiros. Por causa da chegada deles, o trabalho começou a crescer super rápido, porque eles chegavam lá pra servir naquilo que Deus estava nos conduzindo e a partir daí a coisa começou a multiplicar.

Qual a principal consequência da guerra que você nota hoje na Angola?

A pobreza ainda é muito gritante e há também um sério problema de educação – 70% da população é analfabeta. Isso porque 60% da população são crianças e, dessas, 50% estão fora da escola. Os que estão na escola recebem um ensino totalmente antiquado e fraco. Nós temos crianças lá, nos projetos que temos na base, que estudam em escola pública, estão na quinta e sexta série e ainda não sabem ler. Além disso, o custo de vida é altíssimo, porque o país não produz nada, não há indústrias no país e tudo lá precisa ser importado. Agora, dez anos depois da guerra ter terminado, você começa a perceber iniciativas para que o país produza seus próprios alimentos e invista na agricultura. Por anos não se plantou nada, por causa das minas no interior do país sempre ameaçando a população.

Com o que você trabalha hoje?

Eu e o Daniel (atual marido) temos um ministério chamado Pró-Angola, Programa de Transformação e Desenvolvimento Integral na Angola. Foi o projeto da EPOL (escola de líderes da JOCUM) do Daniel em 2007. Ele é bem voltado para o desenvolvimento do país e transformação social. Hoje em Angola não tem mais nada de programas de assistencialismo. O nosso foco no projeto é levar treinamento para capacitar profissionais para as diferentes áreas da sociedade, cristãos que vão fazer diferença nas esferas em que estiverem. Também temos um foco entre os povos não alcançados, de servir os trabalhos que já existem. Hoje temos trabalhos em três localidades que estão bem avançados. Os obreiros já falam as línguas, já estão pregando, porque estão bem contextualizados na cultura, mas nenhum desses povos tem a Bíblia. Agora, numa parceria com a Wycliffe, queremos implementar projetos de oralidade para 12 línguas (a Angola tem 42 línguas oficiais e cada uma delas têm várias outras subdivisões).

O que você ainda sonha em realizar em missões?

Meu sonho ministerial é continuar obedecendo a Deus para onde quer que Ele me envie. Seja em Angola, seja em outro lugar, até o final da minha vida eu quero obedecê-lo. Tenho dentro de mim esse clamor muito grande por aqueles que nunca ouviram de Jesus.
Algo novo que está surgindo ultimamente é um clamor pela nova geração de missões. Posso dizer que é um sonho ver esta nova geração, não só de JOCUM, mas em geral, realmente obedecendo ao chamado de Jesus, especialmente em relação aos povos. Nós não vamos alcançá-los sem um compromisso de longo prazo. Eu não estou mais vendo pessoas, na geração mais jovem, com esta disposição de doar suas vidas por um longo prazo. Não sei se posso colocar como um sonho, mas que a minha vida possa encorajar pessoas da nova geração a obedecerem ao chamado de Jesus em direção aos não alcançados a longo prazo, porque a curto prazo a gente não vai conseguir. Pelo menos essa é a experiência que temos tido em Angola.
Você acha que é isso que falta para alcançar os não-alcançados, esse compromisso da nova geração?
Essa é uma das coisas. Deus vai fazer, com a gente participando ou não, mas creio que Ele nos convida a participar, a escrever esta história com Ele, e eu não quero ver a nova geração perdendo esta oportunidade, de escrever a história com Deus e ver o Evangelho chegando a todos os povos. Isso é um privilégio que Ele nos dá.

Neste tempo, o que foi mais difícil em missões pra você?

Não foi a questão financeira, não porque tenha sido fácil, porque nem sempre foi fácil e tivemos momentos de muitas lutas. Também nunca pensei em desistir por causa da guerra, do medo que sentia na guerra, ou por causa das doenças na Angola – eu tive 38 malárias lá, sofri e quase morri várias vezes. Nem mesmo a morte de meu esposo me fez pensar em desistir. Não que tinha sido fácil, foi muito difícil perder o Marcos. Foram dois anos até conseguir virar a página, mas nem ali perdi a convicção do meu chamado. Mas algumas situações de relacionamento com meus colegas missionários já me fizeram pensar em desistir. A maior luta que enfrentamos em missões somos nós mesmos. São as nossas dificuldades de trabalhar juntos, em equipe, de viver aqueles princípios que pregamos tanto nas ETED’s, de perdão, de renúncia, de amor incondicional…

O que é mais surpreendente em missões?

Não sei se surpreendente é a palavra, mas uma coisa que é muito importante pra mim é o cuidado de Deus com detalhes da vida da gente que tenho experimentando ao longo dos anos. Ele se preocupa com os mínimos detalhes, coisas pelas quais sequer oramos. Detalhes… coisas que não orei. Por exemplo, depois da morte do Marcos, fiquei quase seis anos fora de Angola, entre idas e vindas. A casa que tínhamos lá ficou bem mal cuidada. Quando eu e o Daniel chegamos lá, em 2009, não tínhamos dinheiro pra fazer nenhum conserto. Nós nem oramos por isso, porque iríamos fazer só uma pintura. E Deus nos deu um presente estilo “Lar Doce Lar”. Uma pessoa muito rica em Angola viu a nossa casa e decidiu que não estava em condições de morar. Levou-nos pra casa dela durante um mês e mandou uma equipe que refez a nossa casa. São essas coisas que Deus faz que não precisava fazer, esses presentes, não só no sentido material, que surpreendem.

Você foi pioneira em Angola. Pra você o que é pioneirar?

Quando fui pioneirar em Angola nem sabia que estava fazendo isso! Pioneirar é escrever um novo capítulo, ou uma nova história junto com Deus. Acho que é Deus te convidando pra fazer parte, virar uma página e começar a escrever outra. É preciso preparação, mas acho que isso não é o fundamental. Nós fomos pra Angola sem qualquer treinamento transcultural. Fez falta? Fez, mas acredito que aprendemos a depender muito mais de Deus dessa forma. Fizemos coisas erradas, mas acertamos muito mais do que erramos. Sem desmerecer o treinamento, acredito que pioneirar é mais ouvir Deus diariamente e obedecer do que seguir um planejamento.

O que você diria aos novos missionários?

Vão! Ouçam Deus e obedeçam. É muito bom fazer cursos em JOCUM e a missão tem hoje excelentes cursos, mas tenham muito cuidado com o comodismo. Aplique o que você aprendeu, obedeça Deus onde Ele está te chamando. Minha oração mesmo é que esta base seja um trampolim, ou um útero, como disse a Bráulia certa vez, um útero em que sonhos, ministérios e projetos serão gerados com Deus, mas com um trampolim onde você também será lançado pra colocar isso em prática. Que fiquem aqueles que Deus quer que fiquem, mas eu acho que a maioria vem pra ir e não pra ficar.

Texto por Eliceli Katia Bonan

Foto por  Davi de Souza

 

Inicialmente publicado em Jocum Curitiba Sem Fronteiras

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