espiritualidade e vida cristã · missio dei

Esquecer para avançar

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A receita bíblica para superar apegos e encontrar liberdade

Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” – Filipenses 3.13-14

Li por aí que apego é como ter uma corrente amarrada em nossos pés. Quando estamos presos a algo, andamos arrastando um peso que não nos permite viver em liberdade. O apego é ganancioso, sufocante e aprisionador. Ainda assim, todos nós, de uma forma ou outra, somos apegados. Quem, por mais livre que possa ser, não tem seus apegos e seus temores?

O psicólogo Bowlby desenvolveu sua teoria do apego baseado no princípio de que as crianças são apegadas às suas mães e, quando crescem, vão repetir o apego em seus relacionamentos. Portanto, o apego é previsível e, de certa forma, necessário para manter nossos níveis de segurança. Já para os budistas, o apego é a causa o sofrimento humano e uma vida de felicidade só é possível quando não há necessidades, ou seja, quando não há apegos.

A verdade é que nós, míseros homens e mulheres incertos, apegamo-nos a pessoas, coisas, posições, lugares, memórias, sensações. Apegamo-nos ao que vivemos de bom e também ao que vivemos de ruim. Somos apegados porque precisamos nos sentir seguros, queridos, amados, ou simplesmente porque o lugar em que estamos é cômodo e, já que toda mudança requer um pouco de sofrimento, não queremos sair dele. Sendo assim, todas as relações humanas envolvem certo grau de apego.

O problema é quando este apego tira a autonomia e a autoconfiança e torna-se uma dependência. O escritor Walter Riso, em seu livro Amar ou depender?, explica que o apego é a muleta preferida do medo. Ou seja, quando a coragem para ir em frente e viver nos falta, aí então nos apegamos. É como a história daquele homem que passou a noite toda no escuro, agarrado ao galho de uma árvore, por medo de soltá-lo e não saber o que o esperava abaixo. De manhã, estava morto de frio, a menos de um metro do chão. Por que não conseguiu soltar a árvore?

O medo paralisa e precisamos de algo para justificá-lo e mantê-lo. Provavelmente, o homem da história passou horas lutando com pensamentos do tipo “e se”: “E se o galho for muito alto? E se o chão estiver muito distante? E se morresse ao encarar o medo e pular?” Preferiu a noite escura e fria, que o levou à morte, a ter um pouco de autoconfiança e tentar o desconhecido.

A receita de Paulo

Quando Paulo escreve aos Filipenses comparando a vida cristã à corrida de um atleta, ele nos dá dicas preciosas que servem como antídoto aos apegos:

“Irmãos, quanto a mim” – por mais que nosso anseio mais profundo seja relacionar-se e ter intimidade com outras pessoas, nossas escolhas e histórias de vida são apenas nossas. Ninguém pode correr por você, ninguém pode dizer quem você é, ninguém pode ser você. Afinal, somos o que somos e não podemos deixar que o que nos falta nos paralise. Quando fazemos as pazes com nossa individualidade e solidão, os apegos vão embora.

“Mas uma coisa faço” – a diferença entre os atletas que vencem a corrida e aqueles que sequer saem do lugar é decisão e atitude. O corredor decide sair de seu lugar e correr, correr em direção a algo. Apesar do medo, é preciso ter decisão, que levará a atitude de sair do lugar em que se está em busca de lago mais. Os sentimentos podem nem sempre acompanhar as decisões, mas uma coisa faço…

“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam” – se um atleta correr olhando para trás ele vai tropeçar e cair. Se quiser olhar para trás precisará parar de correr. Quando olhamos para trás e nos apegamos é porque estamos paralisados. Esquecer aqui não tem o sentido de “apagar da memória”, mas de soltar. Nós podemos ficar parados no passado, no que nos aconteceu de tão difícil e em como fomos injustiçados. Mas também podemos ficar parados naquilo que nos aconteceu de tão bom, naquele relacionamento tão prazeroso que tivemos (mas que acabou), ou naquela conquista pessoal ou profissional de tantos anos atrás, quando fomos pessoas tão realizadas. Como o homem que deveria ter soltado o galho da árvore e salvado sua vida, precisamos soltar tudo que ficou para trás, seja bom ou ruim.

“E avançando para as que diante de mim estão” – só conseguimos chegar a um novo nível quando atravessamos e deixamos para trás o antigo. Depois de soltar o que passou, é olhar para frente e avançar em direção ao que está adiante. No original grego, a palavra “avançar” tem o sentido de esticar, ou seja, avançar representa um violento esforço para frente. Pensando assim, se houvesse uma bem-aventurança sobre o apego, poderia ser: “Bem aventurados os livres de espírito, porque eles irão mais longe do que todos os outros”.

“Prossigo para o alvo” – mais do que avançar, prosseguir é uma determinação que não para até chegar ao lugar que se propôs a ir. Prosseguir não é jamais ter vontade de voltar atrás, ou de parar, mas continuar, apesar de. Quem tem apegos não prossegue, porque como disse no início do texto, apego é uma corrente amarrada aos nossos pés, impedindo-nos de andar. O atleta, em sua corrida, não pode estar amarrado a nada, pois uma vez que decidiu sair de seu lugar, não poderá ser parado antes de cruzar a linha de chegada. E você, qual é seu alvo?

Tempo de decisão

O filósofo Salústio dizia: “São poucos os que querem a liberdade, a maioria quer apenas ter um amo justo”. No entanto, a Bíblia nos fala que onde há o Espírito de Deus, ou seja, na vida em que Cristo entrou e fez morada, há liberdade. Se há liberdade, não há apegos exagerados, não há medos paralisantes.

Estaríamos dispostos a correr como um atleta de Cristo, esquecendo o que ficou para trás, avançando e prosseguindo para o que vem adiante, por mais desconhecido e assustador que seja? Ou vamos preferir uma existência de sombras, correntes e “senhores” nos dizendo como ir e vir?

Quer um conselho? Jamais negue seus apegos. Antes, disponha-se a aprender, sozinho, a tomar a decisão de soltá-los e viver com mais leveza e liberdade de espírito. Só assim poderá ir mais longe.

Irlanda, novembro/2012

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