espiritualidade e vida cristã · viagem

Moenda

DSC01716
A cana passando na moenda
mói Jesus
De um lado o suco, do outro o bagaço

Estive num engenho de cana no sertão nordestino. No momento em que vi a cana passando pela moenda, fui tomada por este pensamento: o Senhor nos mói.

Não, eu não vejo Deus como um senhor de engenho nervoso, cheio de prazer em lançar suas canas pra serem esmagadas. Mas sim, creio que se nos dispomos a ter mais sabor, a ser mais puros, estar totalmente concentrados, o Senhor nos colocará num processo semelhante ao da cana. Afinal, o suco precisa ser separado do bagaço.

E é exatamente assim que o processo começa: com o suco de um lado, o bagaço de outro. Depois de passar pela moenda, o bagaço vai para o sol, onde é seco pra servir de combustível e manter a fornalha aquecida e o fogo aceso. O suco é peneirado, vira garapa. Pode ser tomado assim ou ir para o fogo, virar esticadinho ou rapadura. A diferença entre garapa e rapadura é pequena, mas de forma alguma insignificante: na rapadura, as vitaminas da cana estão bem mais concentradas. Rapadura é remédio, neste chão de sol e seca.

O suco da cana, quanto mais fogo, mais endurece. A cada fase do processo, mais “sobras” são removidas. Já no final, parece que está limpinho, mas ainda é possível ver boiando por cima dos caldeirões a “bora”, um pó escuro, que, se for deixado, estraga o sabor da rapadura. Fogo a todo vapor e o açúcar mais concentrado, a cana com nova forma, o sabor intensificado.

Estou sendo moída em meu orgulho, toda vez que preciso fazer alguma renúncia. Ao escolher ceder o melhor para o outro, deixo meu “eu” de lado. Sou moída. Quando vejo egoísmo e indiferença ao redor e quero ditar uma verdade, sou moída ao ficar em silêncio. Passo um dia sem água (no sertão, a água não é abundante!), lembro-me da água em abundância em minha casa e sou moída por permanecer aqui. Afinal, não quero ser uma simples vara de cana num canavial imenso. Estou interessada em oferecer meu doce à pessoas, ser melhor, mais parecida com quem Ele me criou para ser.

Viajando quase todos os dias, longe de casa e de todos que conheço, sem dormir o suficiente e sem conforto algum, meus defeitos e os de quem está ao meu redor agigantam-se. A prensa em mim faz-me ficar calada quando quero ter razão, amar quando prefiro afastar-me, procurar as qualidades em mim e nos outros e magnificá-las, quando o desejo é escolher os defeitos e gritar sobre eles num interfone.

Se o resultado ainda não é bom, vou para o fogo da insegurança, da dúvida, da prova das convicções. Até que tudo em mim seja firme, como a rapadura, e puro, o processo não pode terminar. Preciso mesmo passar por isso tudo? Não. É uma escolha. E não basta fazê-la uma única vez. É para ser feita diariamente. Porque entre cana, bagaço, suco ou rapadura, prefiro a última.

Triunfo – PE, 17.11.11

DSC01748
O suco de cana (garapa) agora indo para o fogo pra ser purificado
DSC01738
Nem mole nem firme – esticadinho: a cana puxa-puxa
DSC01737
Agora sim! A cana na forma, firme e cheia de sabor!
Anúncios

Um comentário em “Moenda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s