espiritualidade e vida cristã · missio dei

Das interações sagradas ou profanas e da dignidade do homem

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“aquele que zomba do pobre insulta ao seu Criador” – provérbio de Salomão

A crítica mais severa recebida por um de meus textos foi ao perfil de um morador de rua. Segundo o leitor, tratei o homem como alguém digno de minha pena e não um ser humano cheio de dignidade e valor inestimável. Naquele momento – dias de coisas espirituais tantas ao ponto de faltar-me tempo para pensar, não entendi ao certo o que a crítica significava. Porém, pela dureza das palavras, peguei meu caderninho de anotações e, na categoria “assuntos a estudar”, escrevi: dignidade humana.

Conheci Áureo Angélico de Jesus, o personagem de meu texto, numa madrugada de sexta-feira, envolvida na distribuição de cachorro-quente e abraços nas ruas de Porto Velho. Embriagado e triste, contou-nos ser o dia de seu aniversário. Estava ansioso pra receber um presente! Uma camisa nova! A primeira frase de Áureo, antes do abraço e do cachorro quente, é que não sai de minha cabeça: “A única diferença entre eu e vocês é que a minha roupa está suja”. O que ele estava querendo dizer àqueles jovens empolgados, mas inexperientes?

Por causa de Áureo, parei para enxergar como enxergo o outro – como um “outro”, um estrangeiro, um estranho e diferente, alguém digno de uma noite da minha semana, mas não de um espaço em minha vida, um possível inimigo; ou como uma parte de mim, de uma história maior, uma pessoa que carrega em si um pedacinho do Criador a quem amo tanto? No discurso, era muito cristã e amorosa, só abraços e sorrisos. Na prática, tinha minha coleção de pré-conceitos com cores, crenças, ideologias, posições sociais, tradições culturais, ou simplesmente impedia as pessoas de chegarem perto por viverem a vida de um jeito diferente do meu. Mias tarde aprendi o nome disso: rejeição.

Rejeitamos as pessoas o tempo todo sem, na maior parte das vezes, sequer nos darmos conta disso. Num primeiro contato com uma pessoa, em 5 segundos já formo uma opinião sobre ela. Se encontro algo parecido comigo, familiar, trago-a para perto imediatamente. Por outro lado, se a pessoa é diferente, ou de um jeito que não aprovo, afasto-a me fechando para ela, ou tratando-a com menos do que a dignidade que tem. Olhar para Áureo com pena era minha maneira de dizer: somos diferentes. Estou em condições melhores. Você merece minha comoção. Não sei se algo mais.

Todo ser humano é digno e cheio de valor inestimável, hoje posso dizer. Essa dignidade não vem de uma ideia humanista de que somos super poderosos e capazes das maiores iniciativas. Não. Ela vem da imagem de Deus em nós. Porque Ele nos criou à Sua imagem e semelhança, conforme Gênesis 9.6. Ou seja, para qualquer pessoa que olho e com quem interajo, ali há um pedacinho da glória de Deus compartilhada, algo do caráter d’Ele e de Sua essência. Mesmo nas pessoas que não gosto!

A dignidade não está na função, na utilidade para o trabalho, no sucesso pessoal e familiar, nas habilidades físicas ou intelectuais, no fato de eu considerar uma pessoa boa ou má. Está no sacrifício de um Deus Criador que morre pra salvar Sua criatura e a torna santa por meio deste ato. Nada diminui o amor de Deus pelo homem, portanto, nada pode torná-lo menos digno. O sacrifício de Deus por nós – por meio de Jesus, nos faz santos e nos faz sagrados. Nada deveria diminuir o meu amor também por Sua criação.

Começo a pensar que, se todos carregam a imagem de Deus, a forma como trato as pessoas vai refletir a forma como eu O enxergo. Como reajo à dignidade? Cada uma de minhas interações com outros seres humanos torna-se um momento sagrado ou um momento profano. Tudo se resume a um toque, um gesto, um pensamento, uma palavra, uma atitude. Tudo se resume a uma pequena interação, onde me aproximo de Deus ou O insulto. Se aceito e afirmo a dignidade do outro, irei ajudá-lo a desenvolver em si a imagem de Deus. Por outro lado, desvalorizá-lo ou falhar em demonstrar seu valor e o respeito que lhe devo, irá contribuir para distorcer a imagem de Deus nele. Pequenos momentos de graça, ou pequenos momentos de profanação.

Hoje vejo Áureo de outra forma. Ele não é mais um usuário de craque, bêbado e morador de rua. Nada disso sequer toca seu inestimável valor. Áureo é um homem amado pelo Pai, portador de Sua glória, que tem problemas com o álcool, está usando drogas e mora na rua. Os que se oferecem para abraçá-lo não são heróis, como dei a entender em meu primeiro texto. E ele, na nossa breve interação, lembrou-me disso. Ali eu vi a glória e sabedoria do Criador em sua criatura. Grato pelo nosso gesto, Áureo levantou a cabeça para dizer: “Não há nada de melhor em vocês do que há em mim. Somos iguais, temos o mesmo valor. A única diferença entre nós, aqui juntos nesta madrugada, é que vocês vestem uma roupa limpa e a minha está suja”.

“Cada pessoa pode pensar demais em seu potencial de glória; mas nunca será possível pensar na glória que também revestirá o seu próximo. O volume, o peso, o fardo de glória do meu próximo deve pesar sobre mim diariamente, o fardo tão pesado que só a humildade pode carregar, e os ossos do orgulho quebrar-se-ão. É muito sério viver numa sociedade constituída por possíveis deuses e deusas, lembrar que a mais desinteressante e estúpida das pessoas com quem falamos pode, um dia, vir a ser alguém que, se a víssemos agora, nos sentiríamos fortemente impelidos a adorar; ou (quem sabe?) a personificação do horror e da corrupção só vistos em pesadelos. Passamos o dia inteiro ajudando-nos uns aos outros a, de certo modo, encontrar um desses dois destinos. É à luz dessas possibilidades esmagadoras e com o devido temor e circunspeção que devemos orientar as nossas relações com os outros; toda amizade, todo amor, toda recreação, toda política. Não existe gente comum. Você nunca falou com um simples mortal. As nações, as culturas, as artes, as civilizações — essas são mortais, e a vida delas está para a nossa como a vida de um mosquito. Mas é com criaturas imortais que brincamos, trabalhamos ou casamos, e a elas que desdenhamos, censuramos ou exploramos — horrores imortais ou esplendores perenes”

– C.S. Lewis, O Peso da Glória

Eliceli Katia Bonan, Faxinal dos Guedes – SC, 08.02.14

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Se ficou interessado no assunto, indico algumas leituras que fiz:

Em inglês (sem edição em português):

Cross-Cultural Servantohood : Serving the World in Christlike Humility, Duane Elmer: uma das melhores leituras que já fiz, com certeza. O propósito do livro é aconselhar missionários que trabalham em culturas diferentes das suas para que sejam abertos, receptivos e amorosos, vencendo as diferenças culturais. A leitura, porém, é perfeita para qualquer cristão que queira refletir sobre o valor do outro e do diferente, a dignidade de todo ser humano imposta a ele por Deus e as atitudes de hospitalidade que honram esta dignidade.

The Journey Toward Reconciliation, John Lederack: a primeira parte reflete sobre quem são os inimigos de Deus e como nós criamos o imaginário de inimigo, considerando aquele que não sou eu como “o outro”, o estranho.

Em português:

O Peso da Glória, C.S. Lewis: a insignificância da humanidade diante da grandeza de Deus e o peso, a dignidade, que esta glória nos traz.

À Imagem e Semelhança de Deus, Philip Yancey:  junto com o Dr. Paul Brand, Yancey escreve este livro maravilhoso que compara o corpo humano ao corpo de Cristo – nós, os que n’Ele cremos, e reflete como Ele criou a humanidade à sua imagem e como, juntos, formarmos um todo perfeito.

Maravilhosa Graça, Philip Yancey: como a graça de Deus, maravilhosa e imerecida, alcança todo ser humano, independente de cor, tribo, língua, religião, posição social.

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Um comentário em “Das interações sagradas ou profanas e da dignidade do homem

  1. Ual! Muito Bom Eliceli! Parabéns!
    Gosto muito da leitura oportuna faz, e da real importância que voce acertadamente vê e atribui ao personagem.
    Gosto também da forma como discorre o tema! Show de bola!
    “Aureo Angélico de Jesus”. Com esse nome, o Áureo só poderia ser um abençoado mesmo! 🙂

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