espiritualidade e vida cristã

Could be today [Se eu morrer hoje]

Se um punhado de terra é levado pelo mar, a Europa fica menor […] A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raça humana e, portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti
– John Donne
 
“Os homens são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer;
germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca”

– Salmo 90.5,6

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os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer;
germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca.

Salmos 90:5-6

 

 

Se eu morrer hoje, chore minha partida. É quase um desrespeito não chorar uma vida interrompida muito jovem. Não segure as lágrimas. Deixe-as rolar. Depois, enxugue-as e chore-as novamente, se achar necessário. Se doer muito pra você, vá a um lugar silencioso, na natureza, como eu faria. Fique ali um momento, vendo-a dar seu espetáculo. Sente-se e observe, até seus pensamentos silenciarem, o mesmo silêncio que está ao redor. Não estarei com você, mas Aquele que sempre andou comigo estará, tenho certeza. Deixe-O abraçar você e garantir que estou bem. Tudo ficará bem.

Mas não prolongue sua lamentação. Não estarei triste. Não esteja por mim. A morte, como a vejo, não é o fim de tudo. É apenas o estágio final da jornada que me leva a Deus. Uma porta para a nova vida. O último dia antes do primeiro dia. O pôr-do-sol antes da manhã seguinte. Minha ida pra casa. Se você já esteve um longo tempo longe de seu lar sabe bem do que estou falando. A maravilhosa sensação de voltar e rever os que o amam mais, aceitam e recebem cheios de alegria! Pois casa é sinônimo de segurança e sentido, de paz, tranquilidade e transparência. É pra isso que estou indo, se eu morrer hoje.

Então celebre. Sim!, celebre a minha vida, intensa e cheia de sonhos e realizações. E a sua, enquanto ainda há tempo de vivê-la e fazê-la intensa. Celebre nossas oportunidades juntos. As tristezas divididas, as estradas compartilhadas, as conversas até o dia amanhecer. Celebre as nossas aventuras, as coisas bobas, as risadas à toa. A nossa conexão divina e a forma como você me tocou e inspirou minha vida. Você, meu amigo, minha amiga. E você, com quem viajei esta viagem desde meu primeiro choro até o último suspiro.

Se eu morrer hoje, sorria, porque acredito na vida, e na eternidade. Acredito em Cristo, amo a Deus. E sorria porque eu acredito em você, continuarei sempre acreditando! Depois dance. Porque se ainda estivesse aqui, dançar é o que mais gostaria de fazer. E também ler um bom livro. E bater um longo papo com um amigo…

Quando sentir minha falta, encontre uma bela flor. Coloque-a na água, em seu quarto. Ao olhar pra ela, pense em Deus, cheio de graça e amor incondicional. Enquanto a flor estiver viva, pense no meu melhor. Ame alguém neste dia. Faça por esta pessoa o que já não pode fazer por mim. Assim, desinteressadamente, só porque é o que eu faria. Quando a flor secar, jogue-a fora. O apego não faz bem pra alma. Não carregue tantos pesos. Eu fui livre. Seja também. A vida pode sempre surpreender quando damos espaço a ela.

Despedidas são ser duras. Doem na alma. Tiram nosso chão. Por isso haverá muitos dias de saudades. Mas há também no mundo muitas flores. Graças a Deus!

Se não chegamos a ser tão próximos, sinto muito. Por mim, que o perdi. E por você, por me perder. Não há mais tempo, pois se houvesse eu diria: “Conecte-se!” A vida só tem propósito quando tem relacionamento. Conecte-se com Deus, com os outros, com você mesmo. Não perca nada disso, ou terá perdido tudo!

Um dia são como mil anos, fico repetindo. E mil anos podem se passar num único dia. Vivi tantos dias de mil anos! Intensos… nem sei se cabem numa única vida. Também vivi tão pouco! Outros mil anos e a sensação seria a mesma de ter vivido não mais de um dia. Se eu morrer hoje, parto com a certeza de ter gasto bem meus poucos anos. Coloquei todas as forças em tudo que fiz. Acreditei, amei, lutei pelo bom, pelo justo e pelo melhor. Queria salvar o mundo! Não deu. Ainda assim, dei o melhor de mim onde achei necessário. Tentei fazer mais do que apenas viver. Toquei vidas, acredito. Ajudei a transformar futuros, consertar passados e melhorar presentes. Haveria tempo de fazer mais? Sim! E eu o faria!

Porém, se eu morrer hoje, saiba: minha vida foi uma vida de estações. E eu amo a mudança de estações! Elas me dão paz. As chuvas que trazem o verão, os primeiros ventos gelados do inverno, as folhas secas anunciando o outono, as flores da primavera…

Sim, a  minha foi esta vida de fases. De tempos. Um tempo para cada coisa, tempo para todas as coisas. Mas, se eu morrer hoje, é porque o meu tempo, aqui, acabou.

Faxinal dos Guedes – SC, 19.01.14

Calma! Não coloque minhocas em sua cabeça, tampouco na minha. Isto não é uma carta de despedida. O que é, então? Os últimos meses foram tempos de ver algumas pessoas próximas e bastante jovens partindo. Quando pessoas jovens morrem é impossível não lamentar. É impossível não parar pra pensar em nossa fragilidade e em como o tempo aqui é breve. Bom, e se não podemos falar da morte sem ter medo de que ela nos encontre por causa disso, ou, se como escreveu Paulo, o apóstolo, nossa esperança limita-se apenas a esta vida visível, quão infelizes seres nós somos!

Como na frase que citei de John Donne, nós, como seres humanos integrados, da mesma forma que a Europa torna-se menor ao perder um punhado de terra, assim também morremos um pouco todos os dias quando pessoas morrem ao nosso redor. Ou, melhor dizendo, cada vez que os sinos da igreja tocam anunciando a partida de alguém, torno-me mais consciente de minha temporalidade, do fim certo e da minha partida a qualquer momento. Hoje, amanhã, no próximo ano… é impossível saber!

Pode ser a qualquer momento o momento em que Ele virá por mim. Estou livre para ir? Aproveitei a jornada? Investi no que realmente importa? Fecharei bem este ciclo? Conseguirei encarar a partida como a ida para casa e não como o fim de todas as coisas? Estarei pronta para o primeiro dia do resto de minha vida?

E por meus queridos que já partiram, deixo um pouco de lado a dor da perda, e celebro a vida incrível que tiveram e o prazer que foi tê-los conhecido, o momento de sua morte assim como celebraria o dia de seu nascimento.

 

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