espiritualidade e vida cristã · fragmentos · missio dei

um lamento e um clamor por graça

godsgrace

“nada trago nas mãos,
simplesmente me agarro à Tua cruz”

– Augustus Toplady, “Rock of Ages” (1776)

Nos últimos meses tem sido assim: pelo menos uma vez por semana recebo notícias de fracassos na fé. Irmãos meus, amigos, companheiros de caminhada… Alguns, andavam muito bem, seguindo o sonho e a visão de Deus pras suas vidas. Influenciadores, homens e mulheres fortes, inspiradores. Simplesmente desistiram, acomodaram-se, pararam de crescer, não querem mais andar. Outros ainda não desistiram apenas de uma missão de vida, mas abdicaram da fé. Caíram naquilo que mais condenaram, agiram contra todas as expectativas, ‘perderam a cabeça’, deixaram o bom senso, estão piores do que estavam antes de começar.

Exemplos não faltam na história de como a fé cristã triunfou sobre tudo, contra toda a oposição e perseguição, contra a religiosidade, o institucionalismo, os falsos dogmas, contra os erros dos que se intitularam crentes, mesmo vivendo princípios totalmente distantes dos de Cristo. Não, o Evangelho de Jesus não é tão fraco que possa ser derrubado por qualquer força. Não, a vida no Caminho não é tão superficial que não possa nos manter apaixonados durante uma existência toda (e além!). Não, a fé cristã não é tão frágil que não seja capaz de nos manter em pé. Qual é o problema, então? O que impediu os meus queridos amigos de continuar? E, se esses que já admirei tanto, hoje estão tão longe da Cruz, o que me garante que, estando em pé, não cairei também?

Não estaríamos todos nos esquecendo de como precisamos de graça? A agenda atarefada (às vezes, religiosa e ativista) nos faz negligenciar a oração, a santificação, a constância e o quebrantamento na presença de Deus. Distraídos, nos esquecemos de que a vida cristã não é como deveria ser, mas o caminho para ser. Achamos que não estamos sujeitos a quedas, e descuidamos. Não nos lembramos de nossa condição humana, miserável, necessitada da graça de Cristo, a única capaz de nos levantar e manter em pé. Foge-nos que não só a salvação, mas cada um de nossos passos depende da graça, do favor imerecido e da misericórdia sem limites de Deus. E começamos a cair um pouco a cada dia, distantes da cruz, independentes, confiando em nossas conquistas espirituais.

Maravilhosa graça, como é doce o som
Que salvou um miserável como eu
Eu estava perdido, mas agora fui encontrado
Era cego, mas agora eu vejo

Foi a graça que ensinou temor ao meu coração
E a graça que aliviou meus medos
Quão preciosa essa graça pareceu
Na hora em que eu acreditei

Amazing Grace (Maravilhosa Graça), John Newton (1779)

As histórias de fracasso que ouço não me fazem duvidar do Autor da fé. Antes, lembram-me de como estamos todos sujeitos a cair. E, às vezes, por ver tantos caindo, aceitamos (a mentira de) que o Caminho é estreito demais, impossível de ser trilhado. Em vez de correr para a graça, ficamos conformados com o pecado, com a desistência, com os males de nosso tempo. Por isso, pra mim, hoje é mais um dia de implorar por graça. Reconhecer-me humana e falível, e clamar pela graça mais um dia. Sim!,graça, graça, graça, em toda parte!

Graça para que, ao ouvir de pessoas desistindo por injustiças cometidas em suas igrejas, eu lamente e ore, por eles e por mim, pra não parar nas minhas próprias mágoas e dores. Se caíram porque começaram a sentir-se imbatíveis, super-homens da fé, de repente surpreendidos reprovados no que aprovavam, lamento, e oro por graça, pra não ceder ao meu próprio orgulho e não passar a achar-me suficiente, completa, tão cheia do “espírito” e de mim mesma a ponto de não precisar de misericórdia todas as manhãs.

Se ouço de um Cristianismo superficial, de ritos religiosos e de pessoas que se perdem quando pensaram estar se encontrando, lamento também por essas, oro por elas, e por mim, por graça pra não viver mais esta minha fé pobre, sem raízes, religiosa, preconceituosa, falsa e facilmente abalável. Ainda, se ouço de experiências cristãs baseadas em aparências e sem transformação genuína, outra vez, lamento, e oro pra ir além das minhas aparências, dos meus achismos, das minhas frases feitas, das minhas promessas mentirosas.

Oro com mais devoção ainda ao ouvir as histórias (que mais me doem!) dos que viveram Jesus de maneira radical, mergulharam na graça, conheceram Cristo como a um melhor amigo e, sem aviso, viram-se fracos numa dessas oscilações normais da vida, e voltaram atrás. Peço por uma graça maior, pra que não permaneçam como estão, mas levantem-se, e continuem, continuem, continuem…

“Como você chegou até aqui?
Graça!
Como isso foi possível?
Graça.
Qual é seu nome?
Graça”

– Charles Swindoll, “O Despertar da Graça”

Sabendo como também posso ceder, peço por mim mesma, ajuda para permanecer. Fecho os olhos e faço a oração de Martinho Lutero: “Sou Teu, salva-me!”. Só assim prossigo em segurança, tendo a certeza de que Ele mesmo, a despeito de meus erros e falhas de caráter, está vigiando por mim e me levando cada vez para mais perto d’Ele.

“Verdade eterna no cadafalso,
O erro para sempre no trono –
Todavia esse patíbulo faz oscilar o futuro e,
por trás do obscuro desconhecido,
Está Deus em meio às sombras,
Vigiando os que são Seus”

– James Russel Lowell “The presente crisis” (1884)

“A Sua graça nos trouxe em segurança até aqui
E a graça nos guiará para casa”

– John Newton, Graça Real (1779)

Curitiba, 22.06.14

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