espiritualidade e vida cristã · missio dei

a Ruanda como espelho: relembrar para não repetir

Inicialmente publicado em Ultimato Jovem

 

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“A questão fundamental da igreja do século 21 não é se as pessoas ouviram o Evangelho ou como os cristãos estão ganhando influência na sociedade. A questão mais urgente para a igreja é ‘que diferença o Cristianismo faz?'”

– Emmanuel Katongole

A primeira vez em que a Ruanda chamou minha atenção foi em meu primeiro ano de faculdade. Fazia parte disso de “tornar-se jornalista” ler um pouco de tudo, desde literatura universal até bulas de remédio. Numa dessas leituras, estava lá, no canto direito da página da revista, um pequeno quadro com um gráfico da diminuição da população da Ruanda. Não lembro qual era a revista, mas as curvas do gráfico permanecem gravadas em minha mente. Não conseguia entender como, em apenas 100 dias, quase um milhão de pessoas sumiram daquele gráfico. Só mais tarde fui ler sobre o genocídio de 1994.

Desde então, Ruanda passou a ser uma de minhas paixões. Veio a história de Albertine na música de Brooke Fraser, as fotos de Sebastião Salgado, os incontáveis livros e filmes sobre esta terra conhecida como “a Suíça africana”; veio a Inglaterra, o projeto de contar histórias de redenção pós-genocídio, os vários amigos ruandeses que fiz no caminho e o senso de responsabilidade diante do que vi e ouvi. Hoje, Ruanda concorre, ao lado de Colômbia e Irlanda, pra ser objeto de estudo de minha dissertação de mestrado. E hoje, voltando a olhar pra este querido país, percebi o quanto a história de Ruanda já tocou a minha história e a minha jornada como cristã.

O livro mais inspirador que já li foi sobre a Ruanda: uma história de perdão e cura de uma sobrevivente do genocídio. Também o livro mais terrível que li foi sobre Ruanda: do padre Emmanuel Katongole, Mirror to the Church (Espelho da Igreja). Como ele mesmo o descreve, uma história sobre corpos e sobre como o Corpo de Cristo falhou naquele lugar antes e durante o genocídio. Como assim, falhou? Nós cristãos defendemos que a crença em Jesus Cristo, ao chegar a um novo lugar, carrega consigo as mais diversas transformações sociais: melhorias na educação, na saúde, menos corrupção política, mais liberdade de expressão, força na economia, reestruturação nas famílias, dentre outras coisas. Exemplos positivos da influência cristã não faltam. É o caso da Suíça – a nação mais pobre tornando-se a mais rica ao ser discipulada por Calvino, ou da Alemanha de Lutero, da Inglaterra anglicana, dos Estados Unidos e seu clamor por bênçãos para a América. A ética protestante, ao longo da história, está ligada ao desenvolvimento.

Na Ruanda, porém, não foi assim. Na década de 80, a Ruanda era considerada o país mais cristão da África, com mais de 90% da população frequentando igrejas católicas ou evangélicas. Foi alvo de estudos de teólogos neste tempo para descobrir a receita de como converter a Cristo um país inteiro em tão pouco tempo. Ao mesmo tempo, era o país com os maiores índices de pobreza, com uma grande porcentagem da população afetada pela AIDS e um número crescente de conflitos nas comunidades. E em 1994, no país mais cristão do continente, um dia depois de celebrar o dia do amor cristão na semana da Páscoa, nas mesmas igrejas em que se uniram aos seus vizinhos para adorar a Deus, uma comunidade se destruiu com tiros e facões. Não havia paredes, não havia soldados, não havia exército contra a população. Havia amigos, parentes, pais, mães, filhos, vizinhos, colegas de escola e de trabalho, cheios de ódio e agressão uns pelos outros.

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Onde foi que o cristianismo falhou na Ruanda? Quando foi que o discurso de ódio e inimizade passou a substituir o discurso de amor de Jesus? Quando foi que este cristianismo sem consequências atingiu também a igreja universal – aquela formada por todos nós que cremos – eu, você, o vizinho, o parente, o desconhecido lá do outro lado do mundo? Katongole aponta diversos motivos: o abuso de poder em nome de Jesus, o discurso religioso e ritual que não gera transformação, a perda dos valores essenciais do cristianismo, a tradição cultural falando mais alto que a tradição do batismo, entre outras coisas. Ou seja, a Ruanda acaba tornando-se espelho para todos os países de maioria cristã, tanto no Oriente quanto no Ocidente. A mesma tragédia não poderia acontecer conosco hoje, amanhã, sem aviso algum?

Ativistas humanitários usam a reconstrução da memória do conflito como um instrumento de transformação em ambientes que enfrentaram (ou ainda enfrentam) situações de tragédia humana. É preciso relembrar, reviver vez após vez a dor da guerra e da morte para poder olhar para o futuro e trabalhar para construí-lo de forma diferente. O desafio hoje é que eu e você, cristãos, cidadãos de dois Reinos, olhemos para a tragédia da igreja na Ruanda e deixemos essa história ficar marcada em nossa memória, como um chamado à reflexão das conseqüências que a fé tem gerado em nossa sociedade. O desafio é que, ao olhar no espelho, a reação seja de deixar nascer em nós um senso de comunidade, de ser parte, de reconciliação com Deus e com os outros, e de não de sermos alheios ou omissos. Antes, porém, começarmos a nos perguntar como este cristianismo, que falhou por tanto tempo, pode ser relevante e aprender a dizer “não”, seja para o genocídio, para a corrupção, para a injustiça, para a guerra, para o preconceito, para a fome, para o abuso da natureza ou para o tráfico humano. E, mais do que tudo, como ele pode começar a fazer diferença em países como a Ruanda.

“Nós não podemos fazer grandes coisas, mas podemos fazer pequenas coisas com amor”

– Tereza de Calcutá

Photos-of-victims-of-the-1994-Rwandan-Genocide-hang-in-the-Kigali-Genocide-Memorial--2012--Getty-Images*nas fotos, o 20º aniversário do genocídio em Ruanda, em abril deste ano, em eventos realizados pelas Nações Unidas. Ao relembrar a história de seus sobreviventes, o país encontra motivação pra construir um novo futuro.

Curitiba, 29/06/14

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Um comentário em “a Ruanda como espelho: relembrar para não repetir

  1. Sempre que eu leio algo sobre os holocausto, há um momento em minha mente que os pensamentos se desfazem diante à memória de um pesadelo real. Sempre me prende os olhos cada vez que eu vejo. Gam ki elech be’guei tzal mavet lo ira’ra, ki atah Imadi shivtecha umishantecha chema ie nacha’muni. (Ainda que eu ande pelo o vale da sombra da morte nao temerei mal algum, porque tu estás comigo e a tua vara e o teu cajado me consola.
    Amei a página, um forte abraço.
    Yahonatan Dilheimmam (Jonathan De Lima, ou Jon Giove)

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