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Vocação: você já encontrou a sua?

“Não há nenhum único centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo,que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”

Abraham Kuyper, solenidade inaugural da Universidade de Amsterdã, 1880

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Deixei missões em tempo integral para viver integralmente a missão de Deus para minha vida. Fiz isso não sem conflito ou uma grande mudança de teologia pessoal. Pois cresci enxergando o mundo dividido em duas metades, que não poderiam se juntar: preto e branco, sagrado e profano, divino ou secular, chamado ou escolha profissional. Um mundo em que servir a Deus e viver uma vocação era optar pela carreira religiosa. Logo chegou o momento de “deixar tudo” e ir para o seminário teológico, depois para a vida missionária. Mas eu não estava satisfeita n’Ele. E, se “Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos n’Ele”, como escreveu John Piper, tampouco estava cumprindo o propósito maior de minha existência: o de glorificá-Lo.

Meus dois mundos, o secular e o sagrado, o mundano e o da igreja, entraram em colapso pela primeira quando conheci a história de William Wilberforce. Decidido a entregar-se ao ministério pastoral, sua crise começou quando convidado a defender, no Parlamento inglês, o direito dos escravos negros. A causa dos escravos o movia, mas o que ele queria mesmo era servir a Deus. “Por que você não faz as duas coisas?”, sugeriu seu conselheiro pessoal. Ele então reconciliou suas realidades. Dedicou a vida à vontade de Deus de tornar os escravos livres. Seria eu capaz de reconciliar as minhas?

Em seu livro Vivendo com Propósito, Ed René Kivitz abraça o entendimento de que, ainda antes de existirmos, tinha Deus um design e um desígnio para nós. O propósito da vida humana não é apenas a salvação eterna, porém glorificá-Lo enquanto estamos aqui. “O sentido da vida consiste em integrar os mundos do aqui e do além, do agora e do porvir, da Terra e do Céu, do tempo e da eternidade, num mundo só, onde Deus é tudo em todos”, escreve. E só glorificamos a Deus vivendo uma vida de sentido, de mundos reconciliados, vocações entendidas e aceitas, um viver alinhado com a vontade de Deus sobre todas as coisas.

Num mesmo entendimento, Darrow Miller apresenta em Vocação – escreva sua assinatura no universo, uma visão holística de trabalho como vocação, e dessa como chamado divino. Para ele, a visão cristã atual de trabalho separa cosmovisão de prática. Vive-se e trabalha-se, muitas vezes, sem nunca se explorar a visão ou desígnio que guia nossas vidas. A não ser quando se opta pelas carreiras religiosas, nas quais, para ele, só há espaço para 10% dos cristãos. É bom lembrar que boa coisa é almejar o ministério cristão (1 Tm 3.1). Porém, o Evangelho do Reino não é limitado à esfera da igreja, tampouco os chamados e vocações de Deus o são. Cabe a nós, os outros 90%, atuar fora do saleiro e cumprir a agenda do Senhor em todas as demais áreas. Pois um Evangelho que está interessado em pessoas em sua integralidade cria espaço para as mais diferentes vocações, empenhadas na tarefa de transformar vidas e sociedades inteiras pelos ensinamentos de Cristo.

Vivo hoje num mundo onde tudo encontra sentido e propósito em Deus. Passei a ver todo trabalho, feito intencionalmente em prol de um mundo mais reconciliado com o Pai, como um trabalho sagrado, uma vocação santa. O que somos e os talentos que temos foram feitos por Ele, para glorificar a Ele, na tarefa em que formos mais satisfeitos n’Ele. E encontrei minha vocação, onde também está a sua: em qualquer lugar em que Cristo ainda não reina, onde a perfeita vontade de Deus não chegou, nas sociedades que se tornam cada dia mais corrompidas, onde há vidas que não o glorifiquem por não serem satisfeita n’Ele. Aí é que está o propósito do Senhor para ocupar os meus e os seus dias, até que Ele venha (Lucas 19.13).

Publicado inicialmente em Ultimato Jovem.

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