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a arte e a Bíblia

Resenha do livro “A Arte e a Bíblia”, de Francis Shaeffer. Editora Ultimato, 2010, 80 pág.

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O que caracteriza uma obra de arte, seja ela poesia, pintura, filme, música ou peça teatral, como sendo ou não cristã? Qual deve ser a preocupação de um cristão ao criar? A arte evangelística tem mais valor do que a que não é? O cristão pode fazer arte não religiosa? Há sagrado e secular nas artes? E o mercado gospel? Dentro de quais estilos o artista cristão precisa colocar-se? O que significa submeter nossa criatividade a Cristo? Há um modelo bíblico para a arte?

Se você se debate com qualquer dessas perguntas, uma boa dica é reservar 2 ou 3 horas e ler A Arte e a Bíblia, de Francis Shaeffer. Publicado em português pela Editora Ultimato, o livro é um ensaio da década de 1970 sobre beleza e verdade, buscando estabelecer uma base bíblica para a produção criativa. Suas 80 páginas de texto são divididas em duas partes: a primeira, uma discussão sobre a arte no Antigo Testamento e sua aplicabilidade; a segunda e, talvez, mais interessante à esta discussão, é uma lista de perspectivas sobre arte e como fazer dela cristã. Neste momento em que o belo é ainda visto com estranhamento dentro da igreja, numa interminável batalha entre sagrado e secular, a obra de Shaeffer torna-se atual e perfeitamente sintonizada com as questões do artista cristão deste século.

Se diante da pergunta entre fazer uma obra de arte para ser evangelística ou fazer uma obra de arte para ser bela, Shaeffer não pensa duas vezes: Deus se interessa mais por beleza. A arte que é bela é aquela que glorifica a Deus. Também glorifica a Deus simplesmente por ser arte, já que é fruto da criatividade humana e o homem só tem a capacidade de criar por ser imagem e semelhança d’Ele. Adoramos ao Criador enquanto somos criativos e enquanto buscamos excelência no que criamos.

Beleza, ainda, é um atributo do Criador e no Antigo Testamento vemos sua constante preocupação com ela. Lemos sobre um Deus interessado em representar flores, frutas e animais com o uso de técnicas artísticas em ouro, madeira, pedras preciosas e tintas coloridas. O Senhor ordenou que o templo fosse construído com criatividade. Ou seja, mais do que útil, ele precisava ser belo.

Qual é, então, a primeira decisão que o artista cristão deve tomar? Ele deve decidir que, se vai produzir algo, será algo belo e majestoso! Do que falará essa obra? Estamos tratando de uma redenção divina para o homem todo, dentro de toda a criação, que abrange não só questões espirituais, mas o senhorio de Cristo em cada área da vida. E, se no mundo de Deus o indivíduo e a criação são importantes, também o devem ser na arte cristã.

 

“A arte cristã é a expressão da vida integral da pessoa toda que é cristã. Aquilo que o artista cristão retrata em sua arte é a totalidade da vida […] O cristão é quem verdadeiramente é livre – ele é livre para usar a imaginação. Isso também é herança nossa. O cristão é alguém cuja imaginação deve voar além das estrelas” (p. 74).

Depois de decidir “Eu farei uma obra de arte!”, o artista cristão tomará uma decisão por estilo e tema. Shaeffer é contrário à ideia de usar arte como propaganda evangelística. Mais do que sua mensagem, o importante de uma obra é sua filosofia. Isso, porque, para ele, não há arte pela arte e toda obra carrega uma ideia. As produções refletem cosmovisões, sejam verdadeiras ou falsas, e tem o poder de ampliar ou diminuir a cosmovisão que expressam. Por exemplo, se a obra é grandiosa, a cosmovisão por trás dela será assimilada de igual forma, ainda quando falsa. Por outro lado, se a obra não tiver qualidade, nem técnica ou beleza, sua cosmovisão pode ser totalmente verdadeira, mas será menosprezada no final.

Dentro da cosmovisão cristã, o autor fala em dois temas principais. Há um tema menor, que trata da imperfeição do mundo dentro de uma realidade de queda e fracasso do ser humano, tornando insignificante a vida presente. Há também um tema maior, em que a vida é cheia de plenitude e propósito, Deus existe e Deus intervém. Nesse tema nem tudo é abstrato, há sentido e propósito e um otimismo em relação à vida, pois ela aponta para um Criador. Na arte com cosmovisão cristã predomina o tema maior, mas sempre relacionado ao tema menor. Pensar só na realidade da queda é pessimismo e não reconhecer essa realidade é ter uma visão romântica demais da existência.

Arte cristã, somos esclarecidos, não é feita só por indivíduos cristãos. Assim como há indivíduos nascidos de novo, que criam dentro de uma cosmovisão plenamente cristã, há aqueles que não creem, mas pela influência que recebem criam dentro do consenso de uma cosmovisão bíblica, reconhecendo que existe algo além deles mesmos e suas vidas. Da mesma forma, há indivíduos não-cristãos criando a partir de sua própria cosmovisão não-cristã, bem como há indivíduos cristãos que nada entendem de cosmovisão e fazem uma arte plenamente não-cristã.

A grande questão, portanto, sobre o que vamos produzir é uma questão de cosmovisão. Uma vez que a obra automaticamente revela o conteúdo do artista, a preocupação maior deve ser onde está alinhada essa cosmovisão, onde o artista está alinhado. Somos responsáveis por manter nossa cosmovisão de acordo com as Escrituras e não devemos prosseguir criando antes de ter certeza de que assim é.

Acima de tudo, o autor nos assegura, a maior obra de arte é a vida do artista. A criação reproduzirá o que a vida do seu criador é. Num mundo perdido e desesperado, é tarefa do cristão fazer da sua algo belo, uma verdadeira e majestosa obra de arte em adoração ao Senhor Criador da beleza.

 

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