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Vidas na Garrafa

“Se vires alguém se afogando, deves pular na água e tentar ajudar, mesmo se não souberes nadar” – Stanislaw Krzyżanowski

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Tenho esta estranha fascinação por filmes de guerra. Minha lista do Netflix é cheia deles, mas foi por acaso que dei o play em O corajoso coração de Irena Sendler. Estava, na verdade, procurando um drama romântico para terminar o fim de semana. Mas a história de Irena, considerada uma heroína do Holocausto, chamou logo minha atenção a esta história que merece ser contada e recontada e ganha hoje espaço em meu Mural dos Bons Exemplos.

O filme é baseado na história do “Anjo do Gueto de Varsóvia”, como Irena Sendler é conhecida. Ela foi responsável por salvar a vida de mais de 2.500 crianças judias no Gueto de Varsóvia, por meio de uma rede clandestina de colaboradores que retirava as crianças do Gueto e as entregava a famílias católicas dispostas a cuidar-lhes como se fossem seus filhos. É a pessoa que mais salvou judeus durante o Holocausto, individualmente. Irena, porém, não se viu nunca uma heroína. Questionada sobre isso, respondia que era maior o peso por aquilo que não conseguiu fazer do que a satisfação pelas crianças que salvou. Aos seus próprios olhos, fez muito pouco e até o fim da vida, aos 98 anos, ainda tinha sonhos perturbadores com os momentos em que as mães judias lhe entregavam suas crianças.

Irena Krzyżanowski (Sendler é o sobrenome de seu primeiro marido) cresceu em Varsóvia – Polônia, onde seu pai, um médico, sempre manteve relações próximas com a comunidade judaica. Foi tratando dessa comunidade, vítima de uma epidemia de tifo em 1917, que Stanislaw contraiu a doença e não resistiu. Suas últimas palavras a Irena, quando ela tinha apenas sete anos, jamais foram esquecidas: “Se vires alguém se afogando, deves pular na água e tentar ajudar, mesmo se não souberes nadar”. Já adulta, passou a trabalhar como assistente social e no início da guerra, em 1939, quando os alemães invadiram a Polônia, ela encontrou seu chamado de vida: salvar vidas inocentes das brutalidades do Nazismo. Na época, ela tinha um cargo no Departamento de Bem-Estar Social da Varsóvia. Como funcionária do governo, responsável pela assistência social, encaixava-se perfeitamente na posição que passou a ocupar na resistência polonesa, contrabandeando roupas, alimentos e medicamentos para refugiados da guerra, principalmente judeus.

Na invasão da Polônia, a Gestapo encerrou os judeus no Gueto de Varsóvia – um espaço de pouco mais de 4 Km quadrados, capaz de abrigar no máximo 60 mil pessoas, mas com uma população de quase 500 mil durante a guerra. Quando as ordens tornaram o atendimento no Gueto proibido, Irena registrava as famílias judias com nomes cristãos fictícios, e seguia oferecendo-lhes todo tipo de auxílio. Para evitar inspeções, anotava em suas fichas que essas famílias possuíam doenças infecciosas. Quando estava no Gueto, Irena usava no braço uma Estrela de Davi, não só para passar despercebida na multidão, mas em uma demonstração de solidariedade e igualdade. Aos poucos, foi criando confiança entre os judeus da comunidade. Em 1941, a entrada no Gueto também foi proibida, sendo permitida apenas para agentes de saúde. Irena conseguiu para si então uma liberação como enfermeira.

Devido às precárias condições no lugar, as mortes no Gueto de Varsóvia chegavam a 5 mil pessoas por dia. Ajudar judeus de qualquer maneira era considerado um crime. Não qualquer crime, mas um crime com a morte por fuzilamento como punição, da pessoa acusada, bem como de toda a sua família. Ainda assim, Irena não conseguiu conformar-se com a situação ao seu redor. Logo percebeu, porém, que a única maneira de ajudar àquelas pessoas era tirando-as dali. Assim, ao seu trabalho de contrabando, somou outro: falsificar documentos e retirar crianças do Gueto. As primeiras foram crianças órfãs, 500 delas fugiram de mãos dadas com a própria Irena. Ao sair, essas crianças recebiam novos nomes – cristãos –, aprendiam os ensinamentos básicos do Catolicismo e então eram enviadas às famílias, que se dispunham a cuidar delas como se fossem seus próprios filhos até o fim da guerra. Para as crianças que não conseguia uma família, Conventos Católicos na Polônia ofereciam abrigo, de forma clandestina, como se fossem crianças cristãs órfãs. Após entregar as crianças às suas novas famílias, Irena continuou preocupada com o destino delas. Na medida do possível, acompanhava os pequenos e mantinha um sistema de registro interessante, a salvo dos Nazistas. Escrevia o nome das crianças em papel de seda, um com as antigas e outro com as novas identidades e famílias de cada uma. Depois, colocava esses nomes em garrafas de vidro e as enterrava longe de sua casa e do local de trabalho, para o caso de passar por inspeções da Gestapo.

Quando trens da Gestapo começaram a deportação dos judeus do Gueto de Varsóvia para o campo de extermínio de Treblinka, Irena já estava de posse de 3 mil documentos falsos para suas crianças, agora não só as órfãs, mas todas aquelas que os pais estivessem dispostos a entregar aos seus cuidados. Uniu-se à associação clandestina Zegota, mantida por judeus britânicos, de onde recebia recursos e apoio no transporte das crianças. Àquela altura, mais de 280 mil judeus já tinham sido levados aos campos de extermínio. Foi quando Irena passou a liderar uma equipe de 25 pessoas que conseguiu, em três meses, retirar 2.500 crianças do Gueto, além de mais um número de adultos. Os meios eram os mais diversos: esgotos, passagens por dentro de igrejas com entradas dos dois lados, sacos de batata, caixas de ferramentas, ambulâncias, sacos de lixo. Qualquer ferramenta virava um meio de fuga nas mãos de Irena.

Ser pega fugindo com uma criança, ela sabia, significava a morte no mesmo instante. Ela tampouco se deixou intimidar com isso. Contudo, não demorou para a Gestapo descobrir suas atividades e prendê-la, em 1943. Quebraram seus pés e pernas durante seções de tortura. Como Irena não cedeu e preferiu a morte a revelar nomes e localização das crianças ou de seus ajudantes, foi condenada a ser morta pelo esquadrão de fuzilamento. Nos últimos minutos antes de seu fuzilamento, um soldado alemão foi subornado pelos membros da Zegota e a deixou fugir. Irena viveu escondida por um tempo, mas não conseguia ficar parada. Com nova identidade, voltou para Varsóvia assim que pôde andar, onde seguiu contrabandeando alimentos e retirando crianças do Gueto.

Pós-guerra

Seu trabalho social não acabou depois da guerra. Precisava encontrar um novo chamado e o viu em organizar orfanatos e lares para idosos. Também continuou por bom tempo trabalhando para reunir as crianças às suas famílias de origem. A maior parte dos pais, porém, não sobreviveu aos campos de concentração. Após o fim da guerra, 400 crianças que ficaram órfãs foram levadas pela Zigota para o novo Estado de Israel, algumas poucas voltaram para suas famílias judias, muitas permaneceram com as famílias cristãs que as adotaram, mas ainda assim 500 delas ficaram desaparecidas.

Reconhecimento

A história de Irena Sendler – e de suas crianças –, permaneceu desconhecida por muito tempo. Em 1965, Irena foi reconhecida pelo Instituto Yad Vashem, concedendo-lhe o título de “Justo Entre as Nações”. Contudo, o governo comunista da Polônia não a autorizou a sair do país para receber a homenagem e só em 1983 pode receber o título, tendo uma árvore plantada com seu nome na Avenida dos Justos, em Jerusalém.

Simples e discreta, Irena pouco falava de seu passado e ficou muito surpresa quando foi contatada por quatro alunas americanas do ensino médio, que leram uma pequena nota em um jornal sobre ela e estavam interessadas em escrever uma peça de teatro sobre sua vida. Irena estava então com 90 anos. A peça – Life in a Jar (A Vida em uma Garrafa), estreou logo depois e segue sendo apresentada com frequência desde então. Com a fama que a peça alcançou nos Estados Unidos e na Europa, Irena, já no fim de sua vida, começou a receber cartas e ligações de todos os cantos do mundo, dizendo: “Eu sou uma de suas crianças. Obrigada por salvar minha vida”.

Mais tarde, a peça Life in a Jar foi adaptada, dando origem em 2009 ao filme O corajoso coração de Irena Sendler. Irena faleceu em maio de 2008. Antes disso, em 2003, recebeu em 2003 a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração para cidadãos poloneses. Foi indicada, em 2007, a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Mural dos bons exemplos:

Apesar de todas essas condecorações e reconhecimento, Irena jamais sentiu que tivesse feito algo grandioso ou digno de admiração. Para mim, isso é o que faz dela ainda um melhor exemplo e o que mais chama minha atenção em sua inspiradora história. Olhar para ela não é olhar para uma heroína, no sentido de ser alguém tão raro e especial, provido de tanta iluminação que jamais será equiparada por nós, reles mortais. Irena é simples, cheia de defeitos (que o digam seus três ex-maridos!), mas corajosa, abnegada, incapaz de ficar insensível ou indiferente à realidade que a cerca e às oportunidades que surgem de estender a mão e oferecer qualquer tipo de ajuda. Ela olha para o mal no mundo e não reage com ressentimentos ou questionamentos, antes com coragem e atitude. Mais do que isso: Irena é um ser humano como todos nós, mas com um profundo senso de missão de vida e necessidade de não só passar por aqui, mas deixar o lugar melhor. Nas próprias palavras dela:

“Cada criança que foi salva com a minha ajuda é a justificativa de minha existência na terra, jamais um título de glória”

Fontes que usei para as informações:

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