espiritualidade e vida cristã

Caminhando para casa

Escrevi o texto abaixo há vários anos, um desabafo de alguém que se sentia um completa estranha no lugar ao qual pertencia. Sim, a personagem do texto sou eu, voltando para casa depois de uma aula na universidade, no curso de Psicologia, uma de minhas muitas tentativas de encontrar satisfação em projetos de vida mais “normais”, tentativas de ter anseios mais possíveis e preocupações mais realistas – mais condizentes com a realidade com a qual convivia. Sim, minhas tentativas não deram certo.

Hoje, 6 anos depois, deixei o ônibus, as comparações e a pressão (interna e externa) para que me parecesse mais com quem se esperava que eu fosse. Parei de pensar no que poderia estar “errado comigo” e foquei minha energia e motivação em encontrar o “meu lugar no mundo”. Aceitei minha vocação. Com mais serenidade e integridade ao meu verdadeiro eu, caminho para casa. E, na medida em que caminho, aquilo que tanto busquei encontrar me encontra.

O texto não é, de forma alguma, uma crítica a quem fica. Quem vai, deixe-me dizer, nunca supera a vontade de ter podido ficar. Quem fica quer ir, mas se fosse, desconfio, iria querer ter ficado. Porque nós nos tornamos responsáveis por tudo aquilo que ouvimos, e vemos, e experimentamos. Uma vez iniciado esse conflito interior, ele nunca cessa.

A música sertaneja toca num volume alto demais para aquela hora da noite. Apesar de Sarah parecer tranquila, o som perturba seus pensamentos. Sentada no terceiro banco do lado esquerdo de um ônibus cheio de universitários, não esconde a frustração. Acabou de sair de uma aula que poderia chamar de proveitosa, apesar de não saber onde ou quando usará tais conhecimentos. Recostou-se no banco, fechou os olhos. No colo, firme entre as duas mãos, um livro com três meninas muçulmanas na capa. Logo abaixo do título, lê-se: “A história de um homem que combateu o terror com escolas e livros no Afeganistão e no Paquistão”. Em quatro dias de leitura, chegou ao capítulo final, pouco mais de trezentas páginas. “Coisa de quem não faz nada”, diriam suas colegas da universidade. Na verdade, horas de sono trocadas por histórias de ativistas humanitários ao redor do mundo. Essas histórias a motivam, enchem de sonhos, de esperanças, de anseios que não sabe explicar. Porém, hoje não fazem mais do que irritá-la. Está cansada das realizações alheias, da rotina de trabalho, dos problemas familiares, das crises pessoais, dos relacionamentos complicados, das atividades religiosas. Olha ao redor para todos aqueles jovens, felizes, depois de quatro horas na universidade. Lembra-se de ter lido recentemente, em algum lugar, que apenas um entre cem cidadãos do mundo consegue cursar o ensino superior.

– Sou uma privilegiada. A normalidade deveria me satisfazer. Por que me deprime?, perturba-se.

Tenta prestar atenção à letra da música. Fala de um cara cansado das crises com sua amada, que vai beber todas e se divertir. Talvez um relacionamento assim, cheio de crises e que exija bastante tempo, poderia livrá-la de seus pensamentos. Ou qualquer outra coisa: um salário melhor, uma vida mais emocionante. O que falta? O que é preciso para afastar o rosto do menino Camilo, que conhecera numa favela na Colômbia, andando pela rua à procura da mãe? Fechava os olhos e lá estava o uniforme laranja com verde, o olhar assustado.

– Devemos ter alguma razão para viver, um lugar no mundo. A vida não pode ser só isso…

Ao redor, os jovens falam de assuntos de jovens: namoros complicados, festas no fim de semana, a prova daquela matéria difícil, o smartphone novo, o próximo show.

– O que há de errado comigo? Estou perdendo o juízo…

Folheia as páginas do livro que tem nas mãos. No Afeganistão e no Paquistão, as escolas regulares, por falta de dinheiro do governo para sua construção, foram substituídas por madrassas, as escolas do fundamentalismo islâmico. Internacionalmente, os muçulmanos são acusados de terroristas. Os cristãos do ocidente lançam bombas no país na tentativa de acabar com o terror. As crianças muçulmanas, em vez de aprenderem o que há de positivo nos valores religiosos que regem sua nação, aprendem a jihad de um pequeno grupo que alcançou o poder. O grupo ensina-lhes o ódio ao Ocidente. Em resposta, o Ocidente entrega as crianças a Alá.

– Alá que as salve! E a todos os outros, diz Sarah em voz alta, despertando olhares curiosos ao seu redor. – Eles têm mesmo razões para pensar que sou estranha demais, chateia-se.

A música continua alta, falando de alguém que mata e morre por seu amor. Sarah tenta se concentrar nos versos, buscando um rosto que se encaixe na história. Mais uma vez, porém, a voz interior que ela não consegue calar exige sua atenção:

– Alá enviou você.

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