refugiados · viagem

Graça e Alegria

“Nós não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor”

– Madre Teresa

home-faith

Eu me apego mais às crianças. No campo de refugiados, não foi diferente. Apeguei-me especialmente a esta menininha, de nome Graça, que, de um modo que não entendi ao certo, falava apenas português. Assim, eu era uma das poucas pessoas com quem conseguia comunicar-se em sua língua. E ela era uma das poucas pessoas com quem eu podia comunicar-me em minha língua. Africana, com apenas 5 anos, quando me via no portão vinha correndo e dizia: “Você veio hoje! Você veio! Você veio! Mas só você? Cadê a Katarina?”. Katarina é uma voluntária alemã, por quem Graça é apaixonada. Ela não conseguia dizer meu nome, mas me abraçava e celebrava minha presença no portão, dançando com seu gingado africano.

Passei várias horas com Graça Edilse e com seu irmãozinho mais novo, Alegria Francisco. Era impossível não pensar em como serão seus próximos meses, qual será sua história e de sua família… Planejei fazer grandes coisas pela menina e seus irmãos. Sonhei um bom futuro para todos. Imaginei o que faria de sobre-humano para salvá-los desta situação. Porém, no fundo, sei que dificilmente saberei o desfecho da história dessa família. A não ser que a vida reserve um destes momentos inacreditáveis, nunca mais verei minha amiguinha de 5 anos.

Em meu último dia no campo, não sabia ao certo o que dizer, o que fazer. Como dizer para Graça que eu não apareceria mais sem tirar o sorriso de seu rosto? Na metade do dia, quando ela me viu no portão, veio correndo. Então, brincamos por algumas horas. Com moedas que eu tinha no bolso, com laranjas e maçãs, com pedras do chão. Depois, eu a abracei, dei uns beijinhos em sua testa, na bochecha, e lhe disse que é linda, especial, inteligente, é muito amada, tem um enorme coração e é uma menina muito boa, pois foi assim que Deus a fez. Disse-lhe que sua vida será linda, será cheia de graça, será feliz. Disse-lhe para não se esquecer jamais do quanto é especial e amada e que, se algum dia pensar o contrário, deve lembrar-se de mim, a moça do portão que fala português e cruzou o oceano por causa dela. Graça me olhou, com olhos arregalados de criança quando um adulto está dizendo algo muito sério. Perguntei se ela tinha entendido. Ela deu um sorrisão, balançou o quadril de um jeito que só as africanas conseguem e respondeu-me: “Eu sou linda, eu sou especial, você gosta de mim”.

Era isso. Naquele momento, deixei todas as culpas pelas grandes coisas que não fiz enquanto estive no campo. Queria ter mudado histórias, queria ter adotado os órfãos, queria ter garantido uma vaga na universidade para minha amiga síria que quer ser médica, queria ter levado tanta gente para minha casa e mudar tantos futuros!

Na realidade do dia a dia, o trabalho era bem menos romântico. Entregar copos de leite, garrafas de água, pratos de comida, cobertores e tendas, casacos e sapatos. Suprir necessidade imediatas, que voltam a existir depois de algumas horas. Dizer muitos “nãos”, ver muitas caras feias, dizer muitos “me desculpe, hoje não tem, talvez amanhã”…

Pensei que faria grandes coisas por cada pessoa que conheci. Pensei que faria grandes coisas por Graça. Nem sempre foi possível fazê-las. Então, fiz as pequenas coisas, mas fiz cada uma delas com grande amor. Talvez, um dia, essas pequenas coisas provem-se de grandes significados.

 

Panagiouda, Lesvos, Grécia – 21.12.16

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s