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Fuga para a liberdade: a história de HaMed

Quando homens armados vieram atrás dele, o jovem HaMed Mousavez, de 21 anos, soube que teria que deixar o Afeganistão.

Conheci HaMed no campo de refugiados da ilha de Lesvos, na Grécia. Na primeira vez que o vi, pensei que era um voluntário de nossa equipe. Ele estava coordenando a reunião inicial dos voluntários em meu segundo dia no campo, explicando aos recém-chegados sobre segurança pessoal. “Vocês sabem, eu sou da Califórnia, acostumado à vida na praia, então entendo de segurança”, disse, e riu. Não entendi nada. Só mais tarde soube que HaMed era do Afeganistão e já estava há tanto tempo ali como tradutor voluntário que podia conduzir reuniões. No decorrer das semanas, ele provou-se um dos mais simpáticos tradutores com quem trabalhei. Abaixo está sua história:

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“Há mais ou menos um ano, as coisas se tornaram muito perigosas em minha cidade, Kunduz, no Afeganistão. Todos os dias algo ruim acontecia: explosões, pessoas sendo mortas, sequestros, roubos e estupros.

Eu era professor há 5 anos. Quando eu tinha 16 anos, meu professor de inglês disse-me que via muito potencial em mim e bastante talento. Convidou-me para começar a dar aulas e foi aí que minha vida profissional começou, mesmo sendo tão jovem. Era um trabalho muito importante! Ser professor no Afeganistão é uma posição de prestígio. Então, passo a passo, eu fui construindo minha experiência.

Mas os grupos armados que vieram para Kunduz e as mortes começaram, minha profissão deixou de ser vista como algo importante. Para eles, ensinar inglês era uma blasfêmia. Eles tomaram o poder da nossa cidade e a ocuparam por 16 dias. Nós precisamos fugir e levar nossas famílias para outras províncias do Afeganistão, longe de Kunduz. Enquanto estávamos fora, homens armados vieram até a nossa casa. Eles estavam procurando pelo rapaz que, segundo eles, trabalhava com as forças militares americanas – era meu irmão; e por outro rapaz, professor de inglês – ou seja, eu. Estavam ali para nos matar. Nossos vizinhos, tentando nos proteger, mentiram que nossa família era muito pobre e não tínhamos nenhum tipo de trabalho. Eles se arriscaram ao dizer isso, mas os homens foram embora, bater em outras portas na vizinhança e perguntar por nós.

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“Todos os dias algo de ruim acontecia”

Quando finalmente pudemos voltar para casa, tudo estava destruído: hospitais, clínicas, escolas, pontes, casas. Mas a cidade parecia segura. Porém, por quanto tempo? Como poderíamos ter certeza de ter não teríamos mais homens armados batendo em nossa porta, ameaçando toda a família?

Então, tomei uma decisão. Disse à minha família que queria sair da cidade. Disse-lhes que queria uma vida onde pudesse ser livre para ensinar e aprender. Peguei meu passaporte e viajei seis horas de ônibus para a embaixada do Irã, para retirar um visto. Antes de sair, quando fui entrar no ônibus, minha mãe olhava-me e chorava. Eu também chorava. Era difícil demais ter que partir.

Depois que consegui meu visto iraniano, voei para o Irã. Era sábado. No Irã, fiquei com minha irmã, que mora ali. Ela tentou convencer-me a morar com ela por um tempo, pois tinha ouvido notícias de que a viagem até a Europa era muito perigosa. Mas eu tinha que continuar em busca da minha liberdade.

Foi bem fácil encontrar um contrabandista*. Esses contrabandistas são todos conectados uns aos outros: um no Irã, outro no Afeganistão, um na Turquia, outro na Grécia. Um contrabandista no Afeganistão deu-me um número de telefone para um contrabandista no Irã. Liguei para ele uns dias depois que cheguei e ele preparou tudo para que eu viajasse na mesma noite até a Turquia.

Um carro estava preparado horas mais tarde e nosso grupo partiu. Duas pessoas no porta-malas e quatro ou cinco no banco de trás. Porque eu estava bem vestido, os contrabandistas pediram-se para sentar no banco da frente, pois achavam que a polícia não desconfiaria de mim.

Viajamos de Teerã para a Turquia. Eu estava nervoso, porque tudo podia acontecer! Pessoas poderiam nos assaltar ou fazer qualquer coisa que quisessem conosco. Não tínhamos nenhum tipo de proteção perante a lei. Nossa viagem era ilegal. Mas tudo correu de forma mais ou menos tranquila e eram 3h da manhã quando chegamos perto da fronteira com a Turquia. Ficamos ali para descansar e no dia seguinte partimos para cruzar as montanhas, agora a pé. Caminhamos por três horas até as montanhas e dormimos ali mesmo. Estava muito frio, mas não tínhamos escolha a não ser seguir em frente.

Às 8h da manhã do dia seguinte, os contrabandistas nos disseram que tínhamos 30 minutos para atravessar a fronteira. Eu comecei a correr e acho que nunca antes na vida corri tanto e tão rápido. Para ser honesto, estava exausto, sentia dores em meus joelhos, nos pés, nas pernas e por todo o corpo. Mas eu não tinha escolha. Para atravessar a fronteira, tinha que correr. Quando finalmente chegamos ao outro lado, procuramos um lugar reservado e paramos para descansar um pouco.

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“O motor do barco parou. Todos começaram a orar em desespero”

Dois dias depois, chegamos a Istambul. Eu não tinha dinheiro suficiente para pagar aos contrabandistas para poder continuar minha viagem até a Europa. Então, pensei, precisaria encontrar um trabalho ali mesmo. Foi o que fiz. Felizmente, um amigo do exterior pode enviar-me algum dinheiro para ajudar com os gastos. Depois de quatro meses trabalhando e economizando dinheiro, consegui pagar pelo lugar no barco que me levaria até a Grécia.

Nós éramos 38 pessoas num barco com 10 metros de comprimento. A travessia foi no meio da noite. Fazia 30 minutos que tínhamos deixado a Turquia quando o motor do barco parou. Todos começaram a orar, em desespero. As pessoas choravam e gritavam muito. Ao redor, tudo era muito escuro. Pensei em ligar para a minha família e dizer adeus para eles. Achei que seria a última noite de minha vida. Mas, por algum milagre, a guarda costeira nos encontrou e nos levou até a ilha.

Chegamos em Lesvos, uma ilha grega que fica a menos de 10 Km de distância da Turquia, do dia 03 de julho deste ano. Logo que chegamos, nos levaram até o campo de refugiados, onde teríamos que aguardar as autoridades gregas processarem nossa documentação para seguirmos viagem até o continente.

Logo percebi que só ficar sentado no campo, sem nada para fazer, deixava as pessoas doentes. Por sorte, em meu segundo dia no campo, conheci um voluntário, que me disse: “Ei, seu inglês é muito bom! O que você acha de ser nosso tradutor?” Então, comecei a também trabalhar como voluntário.

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“Os últimos 10 dias, sem notícias de minha família, foram os piores de minha vida”

Quando cheguei ao campo, estava bastante otimista sobre meu futuro. Mas a vida aqui está se tornando mais difícil a cada dia. As notícias não são boas. Em minha cidade, grupos armados invadiram e tomaram o poder outra vez. Já faz 10 dias que não falo com minha família. A última mensagem que me enviaram dizia que não tinham água, energia elétrica e nem comida. Esses 10 dias foram os piores da minha vida, preocupado com eles e sem saber o que está acontecendo lá.

Já estou aqui há mais de seis meses. Não sei quanto tempo ficarei no campo ou para onde irei depois daqui. Talvez eles me enviem de volta ao Afeganistão. Minha mente fica perturbada quando começo a pensar nisso.

Mas ainda tento ser otimista. Quero ir para a França. Paris é uma cidade muito romântica. Ou para a Espanha, porque gostos muito do Barcelona Futbol Club. Mas, na verdade, não importa o lugar. Tudo o que quero é estar seguro e ser livre e que a minha família tenha o mesmo”.

Notas:
*A travessia de refugiados de países em guerras e conflitos ou com condições econômicas muito precárias tornou-se um negócio de bilhões de dólares. No tráfico de refugiados, são chamados de contrabandistas aqueles que “ajudam” os migrantes a fazerem as travessias ilegais pelos países da Ásia, África e até mesmo da América do Sul, até a chegada na Europa. Para isso, cobram valores exorbitantes, dependendo do serviço que será prestado e da distância da viagem.

Baseado no texto publicado inicialmente em inglês no site da Cruz Vermelha Internacional, usado com permissão. Ilustrações de Karrie Fransman, usadas com permissão. História compartilhada com a autorização de HaMed Mousavez.

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