paz e conflito · viagem

Hospitalidade palestina

Passei pela Porta da Humildade e estava no interior da Basílica da Natividade, na parte Ortodoxa. Minha esperança de não ter muitos turistas foi frustrada: centenas de pessoas andavam para lá e para cá, tentando formar uma fila. Ouvi alguém falando português. “Vou ficar por perto deste grupo e pegar algumas explicações”. Tão logo pensei isso, alguém ao meu lado perguntou-me, num inglês local:
– Cadê seu grupo?
Era um policial árabe. Desconfiada que sou quando estou sozinha em lugares novos, hesitei.
– Não tem grupo?
– É, estou sozinha.
– Quem é você? De onde você é?
Fui aconselhada a não questionar autoridades por aqui. Mas lá fui eu:
– Eu? Por quê? Algo errado?
O policial me olhou, sério. Vendo que estava na defensiva, começou a rir.
– Hahaha! Sou um policial aqui na igreja. Sem preocupação, só estou sendo legal.
– Ah! Ok. Sou do Brasil…
– Brasil? Brasil!!! Neymar!
– Sim, Brasil.
Super empolgado, gritou para o colega que estava do outro lado da igreja. Um policial mais velho, com expressão séria, aproximou-se. Fui apresentada.
– Ela é do Brasil!
A expressão séria mudou.
– Brasil? Brasil! Neymar! Brasil! Muito bom, Brasil. Onde você está hospedada? – perguntou-me o policial mais velho.
Em certas sociedades árabes, nossas referências locais dizem muito sobre quem somos. E minhas credenciais em Belém não poderiam ser melhores:
– Estou no BBC. Bishara Awad, é meu amigo.
– Bishara! BBC! Brasil! Neymar! Bom, muito bom! Venha, venha comigo, – disse o mais velho.
Andamos pela nave da igreja e ele começou a contar-me a história do lugar, do antigo piso, da construção, da reforma…
– Você é religiosa? Quer tocar a estrela e acender velas?
– Não, não é necessário, só olhar está bom.
Um pouco decepcionado, continuou:
– Não é religiosa? Ahh… mas venha, venha comigo.
 
A Igreja da Natividade, em Belém, na Palestina, foi construída no local onde Jesus nasceu. No subsolo, abaixo do altar, há uma abertura, como uma caverna, onde se veem símbolos representando o local do nascimento, a manjedoura, os reis magos. Há duas entradas para o local, uma do lado esquerdo, outra do lado direito. O acesso aos turistas é permitido apenas pelo lado direito. Na fila, mais de 300 pessoas aguardavam sua vez. Cordões vermelhos ao redor do altar e policiais por toda parte bloqueiam a entrada pelo lado esquerdo. O policial que estava comigo foi até os cordões, abriu-os e disse-me para segui-lo. Pela pequena porta lateral esquerda, acessamos a caverna.
Ali embaixo, no lugar onde Maria deu à luz, uma estrela de prata cravada no chão atrai turistas e peregrinos, que se ajoelham para tocá-la e beijá-la. Um grupo de chineses acotovelava-se, o próximo da fila empurrando quem estava ajoelhado para que não se demorasse. Tirar fotos, nem pensar! Meu amigo policial falou com o guarda que estava ali. Do nada, começou a gritar:
– Atenção! Parem a fila agora!
Todos pararam e olharam para ele. Quem estava de joelho levantou-se. Os próximos da fila deram um passo para trás.
– Fiquem parados. Ela vai tocar a estrela! – e apontou para mim.
Dezenas de olhares chineses, de repente, concentraram-se em mim, respeitosamente.
– Ajoelhe-se, toque a estrela -, ordenou o policial.
Obediente que sou, ajoelhei-me, toquei a estrela. Pude ouvir a conversa atrás de mim. Um turista questionava o policial:
– Eu vim da China para tocar esta estrela. Quem é ela?
– China? Hum… Ela está comigo!
Ficaram todos em silêncio.
“Não tem Neymar na China, certo?”, pensei.
– Agora sente-se, vou tirar sua foto com a estrela -, ordenou-me outra vez.
Sentei, tirou a foto. A cena repetiu-se no local da manjedoura (“Saiam, saiam todos! Ela vai tirar uma foto agora”), no memorial aos três reis, em cada pintura e ícone religioso na caverna. Terminada esta parte, saímos.
– Venha, venha comigo! Falando nisso, você quer café?
– Não, estou bem, não é necessário…
Atravessamos para o lado direito da igreja, mais cordões abertos. Um monge ortodoxo vendia velas para os turistas. O policial falou com o monge, pegou um cartão postal e me deu. Pegou uma vela, entregou-me.
– Esta é a sua vela. Muito importante, esta vela.
– Ok.
– Venha, venha comigo!
 
Para os cristãos ortodoxos, acender velas simboliza a submissão e entrega total da vida a Deus. Oferecer uma vela significa dizer: “Aqui está minha vida e tudo que sou. Como esta vela que queima e se desfaz, sou Seu”. Toda igreja ortodoxa tem pelo menos um local para velas. Na Natividade, há vários. O principal fica ao lado direto, dando aos turistas a chance de oferecerem suas velas antes de entrar na caverna. Passando para o início da fila, meu amigo seguia gritando ordens:
– Dá licença, com licença, saiam um pouquinho daqui. Ela vai acender a vela agora.
Vela acendida, foto tirada, atravessamos outra vez, para ir para a parte católica da Basílica. Mais velas, mais fotos, mais turistas…
– A propósito, não me apresentei. Eu sou o Sami. Você quer café?
– Não senhor, obrigada.
Saindo da igreja, encontramos um padre. Outra vez, fui apresentada como celebridade:
– Ela é do Brasil!
– Brasil? Brasil!!!! Neymar! Ronaldo, Kaká!
– Sim, Brasil, – respondi.
Fora da igreja, Sami contou-me que é muçulmano. Trabalha na Basílica todos os dias. Perguntei sobre a Mesquita de Omar, que fica do outro lado da praça.
– Sim! Venha, venha comigo!
 
Atravessamos a praça, contou-me a história da mesquita, construída em homenagem ao nascimento do profeta Isa (Jesus), contou-me do bom relacionamento entre muçulmanos e cristãos em Belém, e explicou-me que eu não poderia entrar, mas tirar foto do lado de fora já iria me deixar feliz.
Na rua, um carro de polícia se aproximou. Sami fez sinal para que parasse. Cinco policiais muito armados olharam para nós.
– Ela é do Brasil! – falou Sami.
– Brasiiiiiiil! Neymar! Bem-vinda Brasil!
Buzinaram, fizeram festa e partiram.
– Moça, antes de você ir, quer café?
– Não, obrigada.
– Venha, venha comigo.
 
A próxima parada foi uma loja de souvenires. Entramos, apresentou-me ao dono e, insistente, perguntou:
– Aceita café?
– Obrigada, estou bem.
Virou para o dono da loja e pediu que me trouxesse chá árabe, com bastante açúcar.
– O Sami aqui é gente muito boa, muito meu amigo, muito bom. Quando você vier comprar qualquer coisa na minha loja, vai ter 50% de desconto. E não pense em dinheiro! Nada disso! Paga quando der. O Sami é muito bom, – disse-me o dono da loja, quando nos despedimos.
 
Caminhamos de volta em direção à Basílica. Percebendo que estava um pouco constrangida e sem saber ao certo como agir, Sami me explicou:
– Você entende o que está acontecendo aqui?
– Acho que não, – respondi.
– O nome disso é hospitalidade palestina. Aceite. Agora, olhe para a minha mão!
Olhei para a mão.
– Veja meus dedos.
Olhei para os dedos.
– Cada um deles é diferente. Porque um é bom não significa que o outro também será.
– Ok.
– Eu sou policial, você sabe. Vou te dar meu número de telefone. Se qualquer pessoa nesta cidade tratar você diferente da forma que você foi tratada hoje, você vai me ligar, dizer quem é a pessoa e onde ela está. Entendido?
Que é que eu poderia dizer?
– Sim senhor! Entendido!
– Aproveite Belém! Tchau Brasil, foi um prazer conhecê-la! Mande saudações ao Dr. Bishara!
– Foi um prazer conhecê-lo também Sami. Ah sim, e viva o Neymar!
– Neymar! Brasiiil!

Bethlehem, Palestina | 17.01.17

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