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A igreja de Cristo na Palestina

“Esteja atento! Fortaleça o que resta e que estava para morrer” – Apocalipse 3.2

Como cristã, meus interesses em Israel e Palestina não são só acadêmicos (fazer minha pesquisa de mestrado), tampouco apenas turísticos (conhecer lugares bíblicos e sagrados ao Cristianismo). Meu interesse também está na igreja cristã local, em saber quem é esta comunidade, como está vivendo e do que precisa.

Estou hospedada no único seminário de língua árabe em toda a Palestina, na cidade de Belém (vou postar um texto falando só deste lugar). Talvez, o mais importante seminário teológico do Oriente Médio – as classes on-line têm alunos do Paquistão, Irã, Iraque, Iêmen, Síria, Líbano, Arábia Saudita, etc. Estar aqui e conviver com esses irmãos tem me dado uma boa perspectiva da igreja local.

Durante o Império Otomano (1299-1923), Belém era uma cidade considerada cristã, com quase 100% da população cristã. A Igreja Ortodoxa, seguida da Igreja Católica, Igreja Arminiana e Igreja Luterana fizeram a história do local. Mesmo o Império Otomano sendo muçulmano, seu sistema de milets – grupos não muçulmanos dentro do território – permitia às minorias (principalmente judeus e cristãos) viverem sua fé com certa tranquilidade. Apesar de alguns relatos de conflitos e perseguições, judeus e cristãos viviam na Palestina em melhores condições do que em muitos países europeus.

O início do conflito entre judeus e árabes, a criação do Estado de Israel, as incessantes ondas de violência que acontecem de tempos em tempos desde a década de 1930, e a radicalização do mundo muçulmano marcam também o enfraquecimento da igreja palestina. O ministério Portas Abertas, bastante ativo na região, classifica hoje a Palestina como um dos 60 países no mundo com mais perseguição religiosa, em nível severo. Diante disso, e das condições de vida na Cisjordânia piorando a cada dia, a maioria dos cristãos escolhe partir para outros países em busca de um futuro melhor.

A igreja palestina em números

A cidade de Belém, a mais cristã do país, hoje está com 25 mil habitantes. Desses, menos de 20% são cristãos (católicos, ortodoxos, arminianos, luteranos, evangélicos em geral). É um dado muito triste se lembrarmos que há pouco mais de 100 anos a cidade tinha 100% de cristãos! Em toda a Cisjordânia, há cerca de 80 igrejas, cujos membros não chegam a 1% da população total, que tem mais de 2 milhões de pessoas.

Em Gaza, com 1,8 milhões de habitantes, é ainda mais complicado: o número de cristãos, incluindo católicos, ortodoxos e protestantes, não chega a 1.200 pessoas. Entre os protestantes, há ali uma única Igreja Batista.

Por outro lado, há boas notícias. O número de judeus messiânicos têm aumentado e aumentam os trabalhos conjuntos entre cristãos que, de outra forma, seriam inimigos. São hoje cerca de 10 mil judeus messiânicos em Israel. Ainda, mais e mais muçulmanos abrem-se ao Cristianismo, querem saber de Jesus, aproximam-se da igreja em busca de uma compreensão diferente do conflito, de perdão e reconciliação, e acabam encontrando muito mais do que isso: encontram o Príncipe da Paz.

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A tradição cristã de Belém enfraquece a cada ano com a emigração dos cristãos locais. Os que ficam, sentem-se sozinhos e enfraquecidos

Fortalecendo o que está para morrer

Quando o Irmão André, fundador do ministério Portas Abertas, veio à Palestina e Israel em busca de contatos com a igreja local, ao orar pela realidade que encontrou, o versículo de Apocalipse 3.2 veio à sua mente: “Fortaleça a igreja que está para morrer”. Desde então, dedicou a maior parte de sua vida à igreja palestina, vindo para cá pelo menos quatro vezes nos últimos 40 anos e ajudando a construir e fortalecer diversos projetos – como o seminário onde estou hospedada. Em seu livro “Força da Luz”, publicado no Brasil pela Editora Vida, ele relata esse trabalho.

Para mim, o mais impactante foi ouvir de nossos irmãos como a perseguição vem até mesmo da própria igreja, nós, do ocidente! Para os defensores da teologia sionista pré-milenista e dispensacionalista*, falar em cristãos palestinos é totalmente inaceitável! Vi recentemente um vídeo de um famoso pastor brasileiro dizendo que palestinos são “uma nação e um povo amaldiçoado”. Nos comentários, sobre a igreja palestina, alguém diz: “Essas pessoas sequer existem, não têm direito de existir”.

Enquanto isso, esses cristãos “amaldiçoados e que não têm direito de existir” continuam aqui, uma força e uma voz de reconciliação e não violência numa cultura a cada dia mais violenta, pregando (e vivendo!) amor e perdão, sendo “pequenos espectros de esperança”, como ouvi hoje pela manhã de um irmão luterano.

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Vivendo os ensinamentos de Jesus como pequenos pontos de luz, ou pequenos espectros de esperança

O que a igreja palestina precisa?

Quando termino minhas entrevistas acadêmicas com ativistas que são cristãos, ou ao sentar para conversar e ouvir dos membros de igrejas, minha pergunta para eles é: O que a igreja palestina precisa? Faço abaixo um resumo das respostas que ouvi:

“Nós precisamos que os cristãos do mundo saibam que nós existimos, estamos aqui! E somos também corpo de Cristo. Este lugar é amado por Deus, é o lugar onde Seu querido Filho nasceu e viveu toda a Sua vida. Também é amado por nós e nós queremos o melhor para este lugar. Então, não podemos simplesmente deixá-lo porque as coisas estão muito difíceis. Ser um cristão no lugar onde Jesus nasceu não é tão empolgante quanto parece. Bem pelo contrário! Embora trabalhamos em unidade com todas as denominações, somos cada vez mais fracos e menores. Muitos desistem e vão embora, muitos apenas sentam e ficam chorando. Poucos escolhem resistir, continuar aqui, continuar sendo igreja, continuar a viver Cristo. Nós precisamos de palavras de encorajamento, de tempos em tempos, da igreja do ocidente. Faz muita diferença para nós quando percebem o que estamos fazendo, ou simplesmente vem aqui e tentam entrar em contato conosco, buscam conhecer nossas congregações e projetos – reconhecem que existimos! Nós precisamos mais do que turistas – precisamos de irmãos! Porém, mais do que tudo, nós precisamos de oração. O ambiente é cada vez mais hostil, não só o ambiente físico, mas também o espiritual. Ser cristão na Cisjordânia é viver sem liberdade e é também viver em constante batalha espiritual. Por favor, cubram-nos com suas orações! Venham nos visitar! Falem de nós em suas igrejas! Orem por nós! Por favor, lembrem-se de que nós existimos!”

Além de oração, há um número significativo de projetos e iniciativas cristãs em que se pode ser voluntário, principalmente em Belém e Jerusalém. Prometo falar mais sobre essas oportunidades em posts seguintes.

Para concluir, acrescento esta canção e o clipe sensacional que o Hillsong United fez, mostrando vítimas de guerra do Líbano e alguns projetos cristãos na Palestina (que também estou conhecendo!). Mais do que qualquer coisa, o Príncipe da Paz é necessário hoje nas terras onde Ele andou há 2 mil anos.

Belém, Cisjordânia | 19.01.17

*Sobre a teologia sionista e como afeta a igreja palestina, indico o documentário With God on Our Side, infelizmente ainda sem legendas em português.

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