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Árvores abençoadas

Plantando oliveiras e conhecendo o movimento de resistência não-violenta na Palestina

Tent of Nations – construindo pontes

Plantar oliveiras, no Oriente Médio, é uma tradição muito significativa. As palavras em árabe para oliveira são “El-Shajarah El-Mubarakah”, que significam “árvore abençoada”. Oliveiras são árvores que levam anos para crescerem e podem durar milênios (as árvores do Jardim das Oliveiras, em Jerusalém, por exemplo, têm 3 mil anos). Ou seja, plantar uma oliveira não é algo que se faça por si mesmo ou por sua geração, mas um bem desinteressado àqueles que ainda estão por vir. Esse favor não merecido contido em cada oliveira faz dela também uma árvore sagrada, como o é todo o bem feito a um estranho, sem se requerer nada em troca. Como toda a bênção, como todo o presente. Quando visitei a Palestina, não planejei deixar ali nenhuma bênção. Mas minha experiência plantando oliveiras acabou sendo daquelas que me ensinou lições para passar aos filhos dos meus filhos.

Plantei oliveiras na propriedade da família Nassar, a poucos quilômetros de Belém, nos Territórios Ocupados da Palestina. Sua história é das mais inspiradoras que conheci. A propriedade, de mais de cem acres, pertence à família desde 1916, período do Império Otomano. Contudo, hoje o local é ocupado pelo Estado de Israel. Uma política recente estabelece que todas as propriedades que não estão sob a administração da Autoridade Palestina podem ser confiscadas para a construção de assentamentos israelenses, caso seja comprovado que a terra não está em uso. Hoje, já há cinco assentamentos construídos nos arredores da propriedade (ilegais, segundo a ONU) e as pressões não são poucas para que os Nassar desistam do local. Israel controla a distribuição de energia e abastecimento de água nos Territórios Ocupados. Ou seja, ali não há luz nem água. Há duas estradas de terra que dão acesso à fazenda, uma de cada lado, a partir de Belém e de Jerusalém. A mais ou menos 2 Km da fazenda dos Nassar, a estrada que vem de Belém foi fechada pelo exército. Para chegar à propriedade, é preciso descer do carro e seguir a pé. Outra lei israelense ainda proíbe que os palestinos construam qualquer coisa nas áreas ocupadas. Mesmo com tanta terra, a família não pode sequer reformar a casa ou erguer uma garagem para o carro.

A casa da família Nassar

Apesar disso, os Nassar transformaram a propriedade em uma fazenda sustentável chamada Tent of Nations. Eles produzem azeite e vinho, fazem inúmeros projetos sociais com crianças da região e recebem visitantes internacionais ilustres (Hillsong United já passou uns dias com os Nassar), e também outros, bem menos importantes (como eu), para acampamentos, projetos e voluntariado. Luteranos, mensalmente recebem apoio financeiro de parceiros internacionais. Ironicamente, seu mais importante financiador é a Igreja Católica da Alemanha.

A estrada de acesso a Tent of Nations foi bloqueada para desencorajar a permanência da família no local

Visitei Tent of Nations pela primeira vez em uma manhã fria de janeiro. Já tinha ouvido falar várias vezes sobre eles desde a minha chegada, mas não esperava encontrar a beleza e a alegria que me receberam ali. A casa da família, simples e prática, tem uma vista privilegiada: de um lado, as lindas paisagens de Israel, a Faixa de Gaza e o Mediterrâneo se veem ao longe, quando o dia está claro. Do outro, o Mar Morto e as fantásticas montanhas da Jordânia, que ganham uma tonalidade cor de rosa quando o sol está se pondo.

Logo que chegamos, depois do chá e das apresentações, saímos para ver a propriedade. Os irmãos Dahud e Daher nos mostraram a propriedade, explicaram o contexto em que vivem e, com bom humor, contaram de suas estratégias para driblar as pressões israelenses. Como não têm energia, criaram um sistema para produzir energia solar. A água, da chuva, é mantida em cisternas debaixo da terra, de forma que os soldados não as vejam nas visitas quase semanais que fazem. Como não podem construir, os Nassar voltaram às tradições de seus pais e avós: habitar em cavernas. Longe dos olhares israelenses, abrem cavernas debaixo da terra, entre as pedras, aonde recebem seus convidados, amigos e voluntários. E ainda aproveitam as vantagens: nos dias frios, as cavernas ficam quentes. No calor insuportável do verão, são frescas e agradáveis.

Enquanto caminhamos de uma caverna para outra, Daher nos conta que no último mês judeus radicais de alguns assentamentos invadiram a fazenda. Ameaçaram a família, arrancaram e queimaram 1.500 pés de oliveira. Perguntei a ele o que iria fazer, sem as oliveiras. Ele deu uma gargalhada, um sinal da leveza com que encara toda a situação, e me explicou: “Eu chamo meus amigos judeus, outros, que não são tão radicais. Eles vêm, me ajudam a plantar de novo, nós comemos juntos, tomamos café árabe e batemos um papo. Aí eles vão embora, até que a propriedade seja invadida outra vez. Você também pode ajudar. Quer vir plantar oliveiras conosco?”. É claro que eu queria. E, de fato, fui, alguns dias depois. Mas continuei inquieta com minhas perguntas: “Como conseguem viver assim? Nesta situação? Como conseguem não reagir e não se defenderem?”. Com seu jeito palestino de ser, simpático e hospitaleiro, mas, ao mesmo tempo, falando inglês como se falasse árabe – ou seja, sempre no modo imperativo (“Faça! Tome este chá! Sente aqui! Venha! Vá!”), explicou-me, rindo: “Todos os dias tenho uma escolha a fazer. Eu posso escolher o ódio e a vingança. É fácil escolher odiar. Mas escolho dar a outra face, como Cristo me ensinou a fazer. Eu me recuso a ter inimigos. Quero construir pontes e não muralhas”.

Tent of Nations é parte de um movimento palestino de resistência não-violenta. Inspirados por personagens como Gandhi, na Índia, Nelson Mandela, na África do Sul, ou Martin Luther King e o movimento negro no Estados Unidos, entendem que a melhor forma de reagir às injustiças que sofrem com a ocupação israelense não é por meio de armas ou atos terroristas desesperados. Suas armas são as palavras, os protestos conjuntos, a desobediência civil. Quando lançam bombas, eles respondem chamando ao diálogo. Quando se espera que aceitem ser subjugados, eles resistem, pacificamente, firmes naquilo que defendem.

Na entrada da fazenda, o lema da família está marcado em pedra, para ser obedecido como lei, em diversas línguas: “We refuse to be enemies”. Em meio à realidade de um conflito que dura mais de 100 anos, com injustiças das mais diversas cometidas tanto por israelenses quanto por palestinos, os Nassar contagiam seus visitantes com sua alegria e esperança inabaláveis. Nas terras secas da Cisjordânia, são um oásis de resiliência e otimismo.

Depois de um dia longo plantando oliveiras, voltando com as ferramentas de trabalho, alegres e satisfeitas pelas “bênçãos deixadas à posteridade”

Em minha terceira visita ao local, eu e meu grupo de amigos plantamos 30 novas árvores. Brincando, batizei cada uma das nossas oliveiras com um nome e cantei-lhes uma canção. Abençoei as que abençoariam. E prometi voltar para visitá-las, em algum momento nos próximos 3 mil anos. No fundo, estava achando minha atitude muito idealista e inocente. Que diferença faria mais uma oliveira neste lugar de tantas complexidades e injustiças? Como muitos “bens” que faço desinteressadamente, às vezes por puro idealismo e inocência, ali estavam oliveiras que dificilmente sobreviveriam às próximas semanas. Poderia acreditar numa frutificação? Sem em nenhum momento subestimar o potencial daquelas pequenas árvores, Daher continuava nos entregando mudas, sorridente e feliz, uma recordação de que não é o tamanho das coisas, mas seu significado que realmente importa.

Antes de ir embora, em sinal de compromisso de construir pontes e não muralhas, registrei ali, em pedra, na minha própria língua, o lema de vida da família Nassar: “Nós nos recusamos a ser inimigos”.

 

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