Sobre : Sujos Pés

Todo aspirante a escritor contemporâneo, disseram-me, deve começar com um blog. Não estou certa se quero ser escritora e sou indisciplinada demais para manter um blog. Mas há tempo suficiente adquiri um vício incurável, o qual decido chamar de “Prazer da Palavra”, assim, com letras maiúsculas, para que se perceba a grandeza do poderoso. Incansável, faz-me acreditar que tudo que sinto, vejo e ouço precisa ser processado, enfeitado e transformado em palavra escrita. Apeguei-me a ele e qualquer leitor de autoajuda já deve saber: alguns apegos são tão cruéis que serão carregados conosco para o resto da vida. Não há cura, não há jeito. A máxima deste meu vício é a frase célebre de meu amigo de profissão Antônio Biá (o contador de histórias), no filme Narradores de Javé: “As palavras voam. Os escritos permanecem”.

Se você me conhece bem, sabe dos meus dois caminhos de contar histórias (e de ver a vida). Por causa deles, já pensei em ter dois blogs: um para meus textos mais literários e jornalísticos – minha paixão; outro, para os textos de cunho religioso, tanto os de espiritualidade e vida cristã quanto os mais políticos – minha causa. Contudo, se sou uma única pessoa, assim, com diversas facetas e interesses que não podem ser divididos e fragmentados (ou não terei mais a essência do que significa ser eu), como posso dividir minha mente e minha escrita em dois endereços? Não posso. Dispensei a ideia.

Sendo assim, fique à vontade para escolher textos de sua preferência – os religiosos, os políticos, os jornalísticos, os literários, os bobos, os sérios, os desabafos, os descritivos, os opinativos, os que são e os que não são, os que dizem e os que não dizem nada, só estão aí para ocupar espaço e enfeitar. Se não gostar, tudo bem. É seu direito. Também não gosto de muito do que escrevo, mas gosto de ter escrito, como disse bem o jornalista Armando Nogueira. Se quer mesmo saber, escrevo pela necessidade de livrar-me das coceiras da alma, as mesmas de Clarice Lispector (claro que jamais com a mesma maestria). A escrita é meu meio de exorcizar as agruras e economizar na terapia.

Ainda em minha defesa, registro a frase de José Hamilton Ribeiro, quando questionado sobre sua motivação para deixar a segurança do Brasil e ir cobrir a guerra do Vietña: “Jornalista tem muito – muito mesmo – do compromisso entre romântico e missionário que o leva a estar onde a notícia estiver, para denunciar a injustiça, a iniquidade, o preconceito, o uso abusivo da força, do dinheiro e do poder”. Eis minha pororoca!

Por último, Habacuque, meu querido profeta reformador, também só aquietou seu espírito quando sentou-se e escreveu a visão, para que se pudesse ler até mesmo ao passar correndo (Habacuque 2.1-2, Bíblia). Como ele, escrevo na esperança de figueiras florescendo, vides dando novos frutos e oliveiras deixando de ser decepção, ainda que toda esta revolução aconteça apenas aqui, do outro lado da tela.

Terminados os argumentos (filha de aspirante a advogado, boa argumentadora é), explico que Sujos Pés recebe este nome por dois motivos (ou três):

(1) Jesus, meu Mestre, meu herói, ao enviar seus discípulos para novas terras (Lucas 9.1-5, Bíblia), disse-lhes que, se não fossem bem recebidos por onde passassem, deviam bater o pó dos pés antes do próximo lugar. “Ser enviado” é sujar os pés, caminhar de um lugar a outro, ou de aldeia em aldeia, como faziam os 12, anunciando a chegada revolucionária da novidade de vida, do favor imerecido, da justiça reconciliadora, do amor incondicional. Como não há garantias de hospitalidade e boa recepção por este mundo a fora, cumprir uma missão de vida é, certamente, ter os pés cheios de poeira.

(2) Lembro-me de um professor de redação repetindo em suas aulas: “Crianças, escrever é a arte de sujar os sapatos. Bom passeio pra vocês. Voltem com um belo texto”. No Jornalismo, escrever bem só é possível quando se suja os sapatos, ou seja, quando se sai de frente da tela do computador em busca de histórias relevantes. Um jornalista precisa sair, ver o mundo, falar com as pessoas, ouvir todos os lados, sentir os cheiros, provar os sabores, colocar a mão na massa (ou o pé na estrada) e se sujar!

(3) Já ouviu falar em hiperidrose? Pois é, é impossível que meus pés fiquem limpos quando ando por aí!!! E o que é mais interessante do que se registrar a aventura de deixar meus pequenos sonhos de lado – pés secos e lugares comuns -, para ousar e viver os sonhos – loucos, livres e suados -, de meu Criador?

Sem mais, seja bem vindo e fique à vontade! Leia, comente, desgoste, divulgue, volte sempre!

 

Curitiba – PR, algum momento de 2011.

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